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Paulo Itacarambi, Diretor-executivo do Instituto Ethos

Foto: Instituto Ethos
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11/06/2008 - Diretor-executivo do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e coordenador da Conferência Internacional 2008, um dos maiores encontros de responsabilidade social empresarial do mundo, Paulo Itacarambi fala ao Portal da RTS sobre os desafios da Responsabilidade Social e Empresarial (RSE) no Brasil, aponta os gargalos para um maior avanço do tema no país e comenta o papel da tecnologia para a construção deste novo caminho.

 
 

Rede de Tecnologia Social - O Instituto Ethos acaba de completar dez anos. Como avalia a maturação da RSE no Brasil nesse período?

 
 

Paulo Itacarambi - Está muito claro que as empresas avançaram mais naquilo que o mercado demanda. Por outro lado, há um movimento grande no Brasil em termos de debate sobre a necessidade das empresas fazerem as mudanças de seus processos de gestão para administrar o impacto de suas atividades. Isso é uma realidade e o assunto está nas mesas de todas as empresas, embora estejamos ainda no início de uma maior profundidade de práticas sustentáveis. Temos empresas pioneiras que resolveram se diferenciar no mercado por esta via, mas elas ainda não representam o conjunto do mercado.

 
 

RTS - Durante a Conferência, o Instituto Ethos realizou a primeira edição da Mostra de Tecnologias Sustentáveis. Como avalia a iniciativa?

 
 

Itacarambi - Nosso primeiro objetivo foi passar a seguinte mensagem para as empresas, sejam as que atuam no campo ou na cidade: existem tecnologias e precisamos utilizá-las. Nós só vamos ter uma nova cultura de sustentabilidade se tivermos tecnologias que nos levem a isso. Isso implica maior investimento em pesquisa desenvolvimento e inovação, em todos os níveis.

 
 

RTS - Um dos temas centrais desta edição foi o mercado socialmente responsável. Como ele dialoga com esse desafio?

 
 

Itacarambi - Hoje sabemos que toda inovação deve ser acompanhada pelo mercado. Precisamos construir, no mercado, mecanismos que dêem valor à prática sustentável e socialmente responsável da empresa e que ao mesmo tempo cobrem essa postura. O Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, por exemplo, é um mecanismo desse tipo que temos de multiplicar.

 
 

RTS - Um dos debates mais acaloradas da Conferência tratou sobre as emissões de poluentes geradores de efeito estufa pelas empresas. Como estamos?

 
 

Itacarambi - As empresas têm que se abrir para o debate e enfrentar os dilemas. A Petrobras, por exemplo, teve a coragem de fazer isso na Conferência, enquanto outras empresas convidadas se recusaram a participar. Por outro lado, falta apresentar propostas concretas para enfrentar o problema. Vamos insistir na necessidade de buscar esse esforço entre as empresas, até porque uma empresa socialmente responsável é aquela que se antecipa e se coloca no caminho da solução.

 
 

RTS - Uma das propostas apresentadas ao fim da Conferência apontou a necessidade de estabelecer critérios para que os consumidores identifiquem índices socioambientais por meio de rótulos e embalagens. Acredita que o país está preparado para avançar neste sentido?

 
 

Itacarambi - É uma questão importante que se coloque a composição dos produtos nos rótulos, inclusive identificando o nível de reciclagem e reaproveitamento de resíduos de cada produto. O consumidor não só tem o direito de ter essa informação, como ela também facilita que ele premie a empresa que de fato aposta em produtos sustentáveis. Nisso também precisamos avançar muito.

 
 

RTS - Também se falou muito em regulamentar o financiamento público. Ainda é fácil para as empresas poluidoras receber financiamento no Brasil?

 
 

Itacarambi - A visão de sustentabilidade ainda tem de entrar mais fortemente nas políticas governamentais em todos os níveis. Na Política industrial, por exemplo, não aparece uma preocupação real com o desenvolvimento sustentável. A preocupação é sempre com o crescimento e não com o desenvolvimento. Está faltando uma visão mais clara no Brasil de que nossa riqueza ambiental e social pode e deve estar no centro da estratégia de desenvolvimento. E na medida em que não vira estratégia, não tem instrumentos para de um lado premiar e de outro punir as empresas que não têm um comportamento sustentável.

 
 

RTS - Acredita na criação de um código de responsabilidade socioambiental no Brasil?

 
 

Itacarambi - Nós, do Ethos, somos contra regulamentar o comportamento sócio-ambiental. O que achamos é que se deve regulamentar mecanismos que valorizem o comportamento sócio-ambiental. Parece bobagem, mas é uma grande diferença. Precisamos, por exemplo, de compras públicas que priorizem e diferenciem um produto sustentável dos demais. Precisamos, também, conhecer a origem de nossos produtos a partir da rastreabilidade. Um produto que é produzido em áreas de desmatamento irregular na Amazônia, por exemplo, não pode ter espaço no mercado. E esta é a forma correta de combater o desmatamento, até porque a atividade econômica não teria como prosperar se isso fosse claramente colocado.

 
 

RTS - Como convencer uma empresa que é possível ganhar mais investindo em práticas sustentáveis?

Itacarambi - Quando a pessoa pensa com a mesma cabeça de sempre, ela não vai enxergar isso. É necessário mudar a visão e é isso o grande avanço deste movimento. Já há muita gente olhando de outra forma. As pessoas precisam saber que não estão sozinhas e que há soluções disponíveis para levar à frente este desafio.

Por RTS
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