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Luiz Carlos Barboza, Diretor Técnico do Sebrae Nacional

Foto: Sebrae
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Diretor Técnico do Sebrae Nacional, Luiz Carlos Barboza, 53 anos, é formado em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas e pós-graduado em Gestão Empresarial pelo Instituto de Pós-graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead/UFRJ). Antes do primeiro mandato no Sebrae (2003-2004), Barboza foi diretor do Instituto de Hospitalidade e coordenador da Unidade de Negócios de Competitividade Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI) durante sete anos, sendo responsável pela formulação e coordenação de vários projetos voltados para o aumento da qualidade e da competitividade das empresas brasileiras. Em entrevista ao Portal da RTS, Barboza fala sobre o papel das Tecnologias Sociais para a geração de trabalho e renda no país, comenta o lugar da inovação para agregar valor à produção e aponta os desafios para a reaplicação em escala de novas práticas sustentáveis no campo.

Rede de Tecnologia Social - Qual o papel das Tecnologias Sociais para a geração de trabalho e renda?

Luiz Carlos Barboza - Principalmente gerar maior valor agregado. A gente tem aí milhões de brasileiros na agricultura familiar ou nas pequenas propriedades, mas com baixo acesso ao conhecimento ou às tecnologias que lhes permitam dar um salto de produtividade, coisa que só é possível utilizando as Tecnologias Sociais. Ou seja, as pessoas são as mesmas, mas à medida que você leva até elas este conhecimento, você está dando-lhes oportunidade e chance de terem maior produtividade, de se organizarem melhor na produção e com isso conquistarem maior qualidade de vida.

RTS - Quais são os principais obstáculos a vencer para avançar nesse desafio?

Barboza - Os principais obstáculos dizem respeito ao tamanho do Brasil e ao número de pessoas que trabalham no campo, nas pequenas propriedades, na agricultura familiar. Eu diria que o principal desafio hoje é a reaplicação em escala, fazer com que isso possa chegar a estes milhões de brasileiros. Tecnologias Sociais devidamente provadas, desenvolvidas e pensadas, nós já temos. Falta agora fazer com que isso chegue às pessoas.

RTS - O Brasil tem testemunhado um processo de expressivo crescimento econômico, inclusive com a incorporação das classes mais baixas à classe de consumo. Acha que isso aumenta a necessidade de investir neste tipo de conhecimento?

Barboza - Sem dúvida. Veja o caso dos programas de transferência de renda. O Bolsa Família, por exemplo, tem levado um volume de recursos bastante importante para as regiões menos desenvolvidas do país. Acontece que uma das maneiras de fazer com que o dinheiro que vai para essas regiões lá permaneça, ajudando a quebrar este ciclo de dependência, se dá exatamente pelas Tecnologias Sociais, na medida em que elas possibilitam que se produza no próprio local, com mais qualidade e produtividade. Outro fato importante é o aumento da produção de alimentos, no Brasil e no mundo. É uma oportunidade interessante porque um novo modelo de produção, baseado em pequenas propriedades e na agricultura familiar, pode ser viabilizado com estas Tecnologias Sociais. A gente tem que transformar a agricultura de subsistência numa agricultura empresarial, mesmo sendo pequena. Com alta produtividade, qualidade e organização dos produtores, é possível conquistar uma boa colocação no mercado.

RTS - O Sebrae lançou um edital destinado à difusão de Tecnologias Sociais. Qual o balanço até agora?

Barboza - Estamos com uma ótima procura e, com certeza, vamos superar a quantidade estimada de propostas. Essa é a primeira chamada e serve para verificarmos qual é efetivamente a demanda. Certo é que precisamos levar as Tecnologias Sociais para todos estes grupos de pequenos produtores espalhados pelo Brasil. Entre outras medidas, queremos também levar o tema para os Territórios da Cidadania. O Sebrae está, neste momento, construindo projetos em todos os 27 estados e a vertente principal do nosso trabalho é exatamente levar as Tecnologias Sociais.

RTS - A RTS deu início este ano à reaplicação em escala de Tecnologias Sociais. Quais cuidados devem ser observados nesse processo?

Barboza - Desde o trabalho das experiências iniciais, a gente tem que ter em mente a reaplicabilidade em escala maior. Então, desde este momento é imprescindível procurar desenvolver o conjunto de conhecimentos e as capacitações que sejam necessárias já olhando para este futuro. Nós não pegamos uma experiência isolada que deu certo em determinado local e simplesmente começamos a reaplicar. Procuramos fazer isso, sempre, dentro de uma gradualidade. No caso do Sistema Pais, a gente já tinha determinadas unidades implementadas que estavam dando certo. Então pensamos: “Vamos experimentar se aqui dá para implantar 100 (unidades do pais)”.

Vimos, com essas 100, que a gente já tinha na mão um pacote tecnológico. E isso deve ser colocado numa linguagem assimilável para o público a que se destina. Não adianta fazer alguma coisa que seja tão complicada ou que exija certo nível de escolaridade que vai ser difícil reaplicar numa escala de milhares. Se você consegue desenvolver e formatar este pacote tecnológico em linguagem apropriada, dando exemplos do cotidiano destas pessoas, você consegue efetivamente reaplicar em escala.

RTS - E potencializando o conhecimento que os produtores já têm também, não é?

Barboza - Exatamente. É muito importante também a formação de multiplicadores e de consultores que vão dar esta assistência aos produtores. O que adianta ter uma Tecnologia Social bem provada, com bons resultados e com alto grau de reaplicabilidade se a gente tem poucas pessoas para reaplicar? Então tem um investimento importante aí que é o de ter pessoas que dominem adequadamente toda a Tecnologia Social, mas que tenham também capacidade de repassá-la para os milhares de produtores, aproveitando os conhecimentos que eles já têm.

RTS - No caso dos micro e pequenos negócios, qual tem sido hoje o papel da inovação para o aumento da competitividade nos negócios?

Barboza - É impressionante o resultado que o pequeno produtor consegue quando ele usa a inovação e a tecnologia. Além disso, tendo lá sua propriedade, ele mesmo pode observar o desenvolvimento das plantas e da produtividade para experimentar algumas coisas. O próprio produtor é quem inova, ele é que está ali com a mão na massa e percebe mais diretamente como se obtém a produção maior ou menor com certos tratos cultivares. Ele precisa ser positivamente contaminado de que deve aprimorar sua produção, valendo-se de conhecimento.

RTS - Qual o papel das políticas públicas para acelerar esse desenvolvimento?

Barboza - Elas são fundamentais, como, por exemplo, na questão do crédito apropriado para os pequenos produtores por meio do Pronaf. Mas também temos que ter políticas públicas do ponto de vista de colocação no mercado, estimulando, por exemplo, os prefeitos em relação à questão de merenda escolar. Ou seja, tem aí uma série de providências no campo das políticas públicas que devem ser feitas tanto no sentido de destravar quanto de estimular o desenvolvimento destes agricultores.

RTS - Qual balanço o senhor faz do avanço das Tecnologias Sociais no Brasil?

Barboza - Crescemos, mas ainda falta avançar muito. Existe muito conhecimento que, de alguma forma, foi desenvolvido, está estocado mas ainda é pouco utilizado em larga escala. Ainda temos muito que fazer para a extensão tecnológica do campo. E talvez este seja um investimento importante a ser pensado para as próprias políticas públicas: como é que se pode efetivamente promover o resgate deste extensionismo rural?

Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS

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