Portal RTS - Rede de Tecnologia Social



Informativo Eletrônico

E-mail*
Nome

                                             Twitter    YouTube    Aumentar o tamanho da fonte Voltar ao tamanho padrão de fonte Diminuir o tamanho da fonte
Ações do documento

Irma Passoni, gerente executiva do Instituto de Tecnologia Social (ITS).

Irma Passoni
Untitled-1.jpg

24/09/2008 - Na década de 70, o Movimento Contra a Carestia mobilizou 1,5 milhão de trabalhadores para reivindicar controle de preços, aumento salarial e política de emprego e renda. Uma das lideranças era Irma Passoni, à época professora do ensino estadual, moradora do Jardim Ângela.

Deputada federal por quatro legislaturas pelo PT, ela atualmente é gerente executiva do Instituto de Tecnologia Social (ITS) e trabalha com a disseminação de metodologias de apropriação de conhecimento para buscar transformação social nas comunidades. A entidade desenvolveu uma metodologia, chamada de Desenvolvimento Local e Participativo, para fomentar ações coletivas de reivindicações e caminhos para solucionar problemas relevantes das comunidades.

Nesta entrevista à Fórum, ela explica o conceito que norteia o trabalho do ITS, a trajetória que a levou para discutir a questão da tecnologia e do conhecimento, e cita exemplos em que a comunidade efetivamente se apropria do conhecimento acadêmico.

Fórum – Como a senhora passou do movimento contra a Carestia para trabalhar com tecnologias sociais?

Irma – Faço parte de um grupo grande que começou a trabalhar nos movimentos populares em 1968. Na década de 60, tínhamos extrema necessidade de tudo nos bairros de São Paulo ou de qualquer cidade do estado, assim como em outros lugares, seja na Bahia, seja em Pernambuco, seja onde for.

 A população não era considerada cidadã com direito a benefícios sociais. No caso de São Paulo, ao sul do rio Pinheiros – e eu morava no Jardim Ângela –, não tínhamos transporte, hospital, creche, escola (eu era prof estado) sem iluminação publica, asfalto, nem rede de esgoto, apesar de estar a beira da [represa] Guarapiranga. Tínhamos outro desafio, eram trabalhadores que vinham do interior do estado nas mais de mil fábricas na região de Socorro e Santo Amaro que começou a passar por uma modernização tecnológica desconhecida dos trabalhadores.

Os patrões diziam que não havia como os operários, vindo do campo, analfabetos e sem formação, trabalharem com automação e controle. Era uma época de demissões em massa, custo de vida alto e falta de informação.

Por falta de infra-estrutura, começamos a organizar pessoas em plena ditadura para resolver os problemas que tínhamos. Seja de emprego, na pastoral operaria, seja de mulheres nos problemas práticos da comunidade. As crianças não tinham escola. Eu era ACT [admitida em caráter temporário] – e, com nosso salário de professora, precisávamos alugar sala, dar merenda e material. Tudo dependia de nós.

Organizamos pressão popular para conquistar as coisas. Nesse processo, enfrentamos prisão, tortura, exílio, sempre a tentativa de anulação, porque éramos taxados de revolucionários, de comunistas. Como organizamos um grande movimento contra carestia, a alta do custo de vida e arrocho salarial, nos capacitamos para constatar o problema e organizar.

Com a anistia, o movimento das Diretas Já, conquistamos a democracia e passamos a buscar o melhor jeito de enfrentar os problemas, porque não tínhamos conseguido tudo, mas pelo menos o direito de voto. Quando eu era deputada federal, começamos a discutir como a ciência e a tecnologia poderiam ajudar a resolver problemas da sociedade.

Tanto na Constituinte em 1988 quanto na CPMI [Comissão Mista Parlamentar de Inquérito] Causas e Dimensões do Atraso Tecnológico no Brasil, de 1992, em que fui relatora – o presidente era Mario Covas – estava claro que precisava organizar o conhecimento e a informação qualificada. Era importante a participação popular para enfrentar quem estivesse no governo, fosse o Jânio Quadros [prefeito de São Paulo de 1985 a 1988] e até Luiza Erundina como prefeita [de 1988 a 1992], mesmo solidária às lutas dos movimentos sociais.

Fórum – Como construir esse conhecimento e essa informação qualificada?

Irma Um dos passos foi dado entre 2000 e 2002, o ministro [da Ciência e Tecnologia, Ronaldo Mota] Sardenberg, me chamou para ajudar a organizar a [2ª] Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, para mobilizar parlamentares e o movimento social. Estava claro que a revolução da informação estava presente, e precisávamos de apoio da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento do país. Com entidades como a Abong, a Asa e o Banco Palmas fomos participar da Conferência. Percebeu-se que era necessário promover desenvolvimento humano e social, é preciso que se conheça para fazer com que o ser humano seja mais pleno. Entre as 43 recomendações, foram retomados os setores industrias, mas e a área social, como fica? Em 2001 e 2002 foi promovida a política para desenvolvimento de software. A parte técnica é muito dura para o movimento social trabalhar com a população, mas o conhecimento continua a ser importante para o movimento. Então criamos o Instituto de Tecnologia Social. Em um processo de debates, discussões e pesquisas, construímos, em consultas com 700 entidades.

Fórum – Como definir tecnologia social?

Irma – Tecnologia social é a ponte entre a necessidade e a solução do problema. É direcionada a gerar trabalho e renda, promove os direitos humanos, contribui para profissionais da academia compreenderem o mundo.

Nossa preocupação maior é com a metodologia. A tecnologia social pode até resultar um produto, dispositivos ou equipamentos, mas ligado a um processo transformador. Não sou um ser máquina, sou um ser humano, e essa metodologia precisa me ajudar a me sentir mais gente, construindo, modificando. São coisas que só consigo conversando com outras pessoas, porque na interação, as pessoas vão se apropriando do conhecimento e construindo transformação social ao buscar solução para problema prático. São novos serviços, inovações sociais, organizações e novas visões de gestão.

Fórum – Quais são os valores necessários em projetos de tecnologia social.

Irma – Produzimos uma série de debates para identificar os valores que a tecnologia social tem de trazer e indicadores para medir. É preciso promover inclusão cidadã, verificar se ela gera participação, se trata de problema de relevância social, se a solução é eficaz e tem durabilidade, se garante acessibilidade a todos – especialmente pessoas com deficiência física e mental –, se tem sustentabilidade econômica e ambiental. É preciso ainda produzir organização e sistematização, quer dizer, é importante que as pessoas escrevam suas histórias e experiências. É preciso haver uma dimensão pedagógica, criar bem-estar e trazer inovação social. Finalmente, um indicador importante é que as pessoas tenham vontade de comemorar e celebrar a caminhada. É um processo longo, que não é feito de um dia para o outro, mas a metodologia vai alavancando novas ações a ponto de a coisa "perder o controle", o que é bom, porque significa que pessoas tomaram controle.

Fórum – Como se dá essa inovação?

Irma – A inovação não ocorre só dentro da fábrica, nas empresas, mas a forma como pessoas compreendem a necessidade, encontram soluções juntos e conseguem encontrar soluções. Elas mesmas vão incorporando e fazendo com que tenham mais conhecimento. Na informática, não basta aprender a digitar, mas entender como construo o conhecimento, como uso e para que serve a informação. Tenho que ser produtor e usuário de informação, e não um digitador de ponta de dedo.

Fórum – Quem faz tecnologia social?

Irma – Os atores da tecnologia social são associações civis, populações tradicionais que foram acumulando seu saber popular, usando conhecimento e tecnologia local. Povos indígenas e quilombolas, ribeirinhos, caiçaras, catadores também têm tecnologias. Mas também pessoas que estão em programas de tecnologia, em instituições de ensino e nos poderes públicos. Uma das mais claras, na minha visão, é o Poupa Tempo, que centralizou todos os serviços de emissão de documentos em um mesmo lugar de forma integrados. Empresas com responsabilidade social também, assim como cooperativas e sindicatos. Tecnologia social não é propriedade de um grupo específico, mas tem condições. É o saber popular conversando com o acadêmico para resolver problemas que a população tem, em sintonia com Constituição de 1988, no artigo 718, com as conclusões da CPI Causas do Atraso e com a criação da Secretaria para Inclusão Social em 2004 [Secis].

Fórum – A partir da criação da secretaria, pode-se dizer que as Tecnologias Sociais são uma política pública?

Irma – Estamos tentando tornar política pública permanente a partir do projeto de lei construído pelo ITS com as entidades do Fórum Brasileiro de Tecnologia Social e Inovação. O projeto [3449/08] foi apresentado pelo deputado Rodrigo Rollemberg [PSB] cria o Programa de Tecnologia Social, Protecsol.

Fórum – A senhora poderia citar exemplos onde a metodologia do ITS foi aplicada?

Irma – A metodologia chamada Desenvolvimento Local Participativo foi fruto de um processo que identificou experiências, juntou pessoas para discutir, buscou na academia as teses nessa área, reconstruiu e aplicou [os conhecimentos na prática]. Fizemos isso por exemplo em Cidade Ipava, na Zona Sul de São Paulo e em duas localidades do Distrito Federal, a cidade satélite de Itapoã e o bairro de Mestre d'Armas, em Planaltina.

A população é mobilizada por meio de uma entidade local, e eles decidem se querem fazer desenvolvimento local. Escolhem moradores para serem pesquisadores, que vão fazer um levantamento de dados em uma pesquisa local, residencial e comercial. Essas pessoas são capacitadas, aprendem a digitar os dados, organizam as informações, e as “devolvem” aos moradores. Eles trabalham os dados, identificam os problemas marcantes e decidem priorizar ações. Ao fazer isso, definem a quem vão se dirigir – que atores do poder público, por exemplo. E fazem uma declaração que reflete os anseios, aponta as necessidades do local. Uma assembléia é feita com toda a comunidade e a declaração é entregue aos representantes do poder público.

Em Itapoã, por exemplo, são 85 mil moradores que só têm uma escola de primeira a quarta série do ensino fundamental. A maioria é analfabeta, mora no bairro há 5 anos e uma em cada três está desempregada. A renda media é de um salário mínimo, o que quer dizer que só têm dinheiro para a alimentação. Não há estrutura, a maioria do comércio é informal, sem possibilidade de sequer organizar um plano de negócio, sem capacitação e treinamento.

Eles priorizaram a construção de escolas, segurança, e infra-estrutura de saneamento. Solicitam serviços bancários – porque às vezes gastam dinheiro mais dinheiro no transporte para pagar uma conta menor do que preço do ônibus. Pediram curso de informática e computação, oficinas de costura, querem organizar salão de beleza, lanchonete, lojas.


Por Anselmo Massad, da Revista Fórum

Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática