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Déa Santos Melo, Comunicadora social e coordenadora geral da organização Mana-maní
23/07/2008 - “Recriando a dança da vida”. Este é o lema da organização Mana-maní, com sede em Belém/PA, e integrante da RTS. Sua missão é facilitar a emergência dos valores humanos, destacando os aspectos universais nas diversas culturas, a partir do reconhecimento, valorização e difusão da diversidade cultural amazônica brasileira, por uma sociedade criativa, inclusiva e amorosa. O foco de atuação da Mana-maní está em iniciativas e programas de caráter educativo-sócio-culturais, na região amazônica, apoiados na abordagem transdisciplinar-holística, tendo como principal metodologia as danças circulares dos povos. Durante encontro realizado com instituições da RTS, em Belém/PA, Déa Santos Melo, comunicadora social e coordenadora geral da organização Mana-maní, compartilhou reflexões sobre as atividades desenvolvidas. Veja, a seguir: Rede de Tecnologia Social - No que consiste o trabalho da organização Mana-maní? Déa – A organização surgiu a partir da intenção de termos uma metodologia de trabalho que se chama danças circulares dos povos ou danças circulares sagradas. Começamos a trazer pessoas de fora para fazer formação em Belém. Sempre percebi, em nossas danças, um caminho de comunicação. Intuitivamente, achava que tinha algo a ser trabalhado. Em 2000, entrei numa roda de dança circular pela primeira vez e percebi que aquele era o caminho. Dois anos depois, eu fiz formação holística de base, na Unipaz. Foi lá que comecei a tecer um compreensão de comunicação que fazia ponte com a compreensão científica acadêmica. Comecei a entender o que vem a ser comunicação social. Ao mesmo tempo, comecei a pesquisar as danças sagradas da Amazônia e as tradições. Depois, nos institucionalizamos e nasceram os programas da Mana-Maní (Saber Tralhoto, Peneirando, Pirapuracéia, Agrado Nativo, Rede de Embalo, Remanso e Retiro). Atuamos com a comunicação criativa a partir das danças circulares dos povos e das tradições, o que é uma Tecnologia Social. No geral, trabalhamos com a cidadania, o empoderamento, o fortalecimento da auto-estima, o reconhecimento da identidade para, a partir daí, trabalhar com os valores e chegar numa cultura de paz e sustentabilidade. RTS - A organização Mana-maní valoriza bastante os processos que ocorrem numa Tecnologia Social. O que isso significa? Déa - Quando se fala em Tecnologia Social, as pessoas se perguntam o que é preciso fazer para a promoção do desenvolvimento dentro de uma comunidade. Então, no caso da Amazônia, vamos trabalhar com agroecologia, pesca etc. Nossa proposta é desenvolver um processo com pessoas que receberão determinado projeto e compreenderão que relação essa iniciativa tem com a vida cotidiana da comunidade, como podem envolver os filhos, as mulheres, as parteiras, as benzedeiras. Há, ainda, saberes que são próprios da comunidade. É importante que ela utilize seus conhecimentos para se sustentar. A nossa proposta de Tecnologia Social é justamente conscientizar ou, ao menos, sensibilizar para a riqueza que as comunidades têm. É preciso recuperar esse saber e utilizá-lo no cotidiano, trazê-lo pra roda. Isso fortalece as pessoas enquanto povo. Outro aspecto é o fato de que nós não valorizamos o que é nosso. Por exemplo: costumamos viajar para o Sudeste ou o Nordeste, em período de férias. Mas não vamos para as regiões ribeirinhas conhecer a Amazônia. Então, como é que vamos cuidar da floresta? Não será possível se não nos reconhecermos como tal. RTS - Precisamos aprender a recriar a dança da vida? Déa - Vida é movimento. Movimento é comunicação. Estou na roda e faço uma dança indígena, por exemplo, que é pé no chão. Em termos de corpo, o pé no chão me fortalece, fortalece as minhas pernas. É com as minhas pernas que eu consigo caminhar. Se associarmos a relação simbólica do nosso corpo, entre o que fazemos na roda e o que fazemos na vida, quanto mais eu praticar a dança indígena, mais eu fortalecerei as minhas pernas, a minha identidade indígena, mais eu terei forças e conseguirei trazer a dimensão da mulher guerreira indígena para eu conquistar espaços por um mundo mais justo e sustentável. Ao dançar, eu mobilizo essa memória, me conscientizo disso, me fortaleço nessa compreensão e, naturalmente, vou fazendo uma outra dança aqui fora. Entendemos o corpo como instrumento de comunicação por excelência. Primeiramente, é preciso estabelecer uma comunicação interna. As pessoas não se comunicam bem com elas mesmas. A gente não sabe onde está nosso limite. Não conhecemos a nossa criatividade. Como posso ser criativa se tenho o corpo rígido? Então, a comunicação passa por aí. Se eu não trabalhar em minha comunicação interna, não poderei ter uma comunicação que realmente expresse o que desejo. E, para alcançar esse objetivo, além de instrumentos, é preciso contar com a presença do ser humano e da dança. É esse recriar a dança da vida que a gente faz quando entra na roda.
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