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Carlos Gomes, coordenador de Manejo da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) na Amazônia
01/10/2008 - Engenheiro florestal formado na Universidade Federal Rural do Amazonas, o coordenador de Manejo da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), Carlos Gomes, teve a oportunidade de conhecer diversas experiências que atestam a viabilidade de um novo modelo de desenvolvimento para a Amazônia. Em entrevista ao Portal da RTS, ele apresenta algumas destas iniciativas, cobra a aproximação do Estado para convertê-las em políticas públicas e destaca o papel das comunidades na validação de novas práticas sustentáveis realmente capazes de reverter a degradação da maior floresta do planeta. Rede de Tecnologia Social - A atividade agropecuária responde por uma das principais frentes de pressão sobre a floresta amazônica. Qual é a lógica que move a devastação? Carlos Gomes - O principal pecado ainda é perceber a mata como um empecilho, uma coisa a ser derrubada para que sejam praticadas culturas do centro-sul do país sem considerar o solo e o clima próprios da Amazônia. Por incrível que pareça, aqui o solo é pobre quimicamente. Os nutrientes se perdem muito rapidamente, embora os solos tenham uma textura boa para agüentar todo o volume de árvores da floresta. Isso sem falar que a capacidade de erosão é enorme. E quando o colono se vê nesta situação é que ele percebe que tem de correr para o pasto, o que resulta no empobrecimento definitivo da terra. Aí a árvore vira capim, o gado pisoteia as sementes florestais que poderiam virar floresta e o cenário se torna definitivamente antropizado, eliminando as chances da mata levantar novamente por si só. RTS - Como isso se reflete no manejo? Gomes - Muitos programas, como o Pró-várzea, realmente deram oportunidade para que fossem desenvolvidas diversas boas técnicas de manejo florestal e de recursos aquáticos, mas pouca coisa foi realmente incorporada decisivamente na agenda governamental como política pública. E este é nosso principal desafio: reconhecer as experiências que já dão certo e apostar na sua multiplicação em escala. O manejo florestal comunitário, por exemplo, é um sistema que mostra bons resultados e que precisa de muito mais incentivos. Para termos uma idéia, para cada 100 projetos de manejo aprovados, nem 1% é de manejo comunitário. RTS - Que tipos de tecnologia a região precisa mais urgentemente tendo em vista a inclusão social de quem vive na floresta? Gomes - O desafio hoje é muito mais organizacional do que propriamente tecnológico. O manejo florestal comunitário é um exemplo. Se a gente conseguisse fazer o Estado reconhecer e certificar a madeira manejada proveniente de comunidades como uma fonte de geração de renda, aumentaríamos o preço dela e diminuiríamos a clandestinidade. Só para termos uma idéia, uma empresa estabelecida na Amazônia tira, em média, de 25 a 30 metros cúbicos de madeira hectare/ano. Para uma família, na terra firme, este valor chega a um metro cúbico por hectare/ano, levando em conta que ele diversifica sua produção com outras atividades. É um impacto muito menor sobre a floresta, mas que poderia valorizar de tal maneira as árvores pelas comunidades que se diminuiria largamente a extração predatória que observamos hoje na Amazônia. RTS - Há conhecimento suficiente para que as comunidades possam avançar no planejamento destas atividades? Gomes - Este é um dos nossos principais problemas. Do ponto de vista não-madeireiro, por exemplo, precisamos ter muito mais conhecimento sobre as espécies. Quanto, afinal, consegue produzir de óleo uma árvore de andiroba? Alguns estudos começam a definir isso, mas essa informação precisa chegar às comunidades para que elas possam se planejar. Há uma comunidade em Gurupá (PA) que identificou que uma árvore de andiroba produz 13 kg de semente, mas ninguém além de lá fica sabendo. E isso é fundamental para que essas comunidades possam estimar de antemão a quantidade de árvores efetivamente exploráveis e o potencial de produção de sementes para se inserir com competitividade no mercado. Para isso, contudo, é preciso que o pessoal se organize primeiro para produzir artesanalmente, para quando chegar o maquinário saber o que fazer com ele. E muitas iniciativas que fracassaram aqui começaram exatamente assim: você já nasce com o maquinário, mas com uma chance altíssima de quebrar porque não se tem organização para articular a produção, nem para manusear e fazer a manutenção destes equipamentos. É preciso antes definir a função do associativismo e do cooperativismo. Só se deve ir para o industrial depois de passar pela associação, depois de entender o que são prazos e planejamento, e isso só se faz com organização comunitária. RTS - A chamada integração lavoura-pecuária-floresta é uma boa aposta para a região? Gomes - No atual contexto, a integração lavoura-pecuária-floresta ainda não conseguiu viabilidade socioambiental e econômica na esfera das grandes fazendas, mas do ponto de vista da agricultura familiar ainda é perfeitamente possível que isso aconteça. Na prática, não existe qualquer discernimento com relação a isso, até porque os grandes produtores tendem a ver a mata como um empecilho. Já a escala do pequeno produtor permite combinar plantio agrícola, reses para segurança alimentar e floresta fornecendo madeira, óleos, cipós e caça porque ele sabe que depende mais de ficar na terra que o grande produtor, que avança sobre novas áreas tão logo elas ficam esgotadas. A queima também é um desafio que temos de enfrentar, inclusive no caso dos pequenos produtores. Muitas vezes se argumenta que o pequeno agricultor queima só em pequena escala, o que diminuiria os impactos, mas se você somar milhares de pequenas queimas tem-se um impacto enorme para o clima. Nisso o processo de “roça sem queima” é fundamental. Com ela podemos manter a caça e o regime de chuvas. O nível de produtividade pode até ser menor, mas é contínuo. Quando se queima, temos uma média de cinco a seis anos de produção em áreas pequenas. Para o pequeno agricultor que depende de ficar na mesma terra a vida inteira, isso faz toda a diferença. RTS - Então estão todos no mesmo barco? Gomes - Não exatamente. Uma família geralmente queima um hectare por ano. O efeito de um hectare, dentro de uma mata que “come” a clareira depois, tem de ser levado em conta. Quando você faz como uma grande fazenda, que queima quarteirões a ponto trazer a descontinuidade da floresta, aí a mata sucumbe. No caso dos pequenos, é a mata que engole. É bem mais facilmente conversível. Dito de outro modo, o pequeno agricultor queima, mas não faz o grande talho amazônico. Quem faz isso são os grandes produtores, que abrem áreas tão grandes que conseguem vencer a própria capacidade da mata se regenerar. RTS - Qual o alcance dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) para a inclusão social das famílias que vivem na Amazônia? Gomes - Quem se diversificou na Amazônia, ficou. Quem procurou agir conforme determinado modismo, esse aproveitou o momento durante algum tempo e teve então ou de sair ou empobrecer. O SAF permite exatamente esta diversificação, além de possibilitar que a família fique na mesma terra para sempre com aumento da renda ao longo do tempo. Isso porque quem trabalha com os SAFs consegue dispor de um calendário de atividades ao longo de todo ano, sempre com um produto diferente para colocar no mercado. Temos a época da farinha, a época dos produtos não madeireiros, dos frutos e assim por diante. Não é que quem trabalhe com o SAF enriqueça, mas certamente tem uma continuidade de renda, coisa que não acontece com quem vive dos sistemas convencionais. RTS - Quais cuidados devemos ter se considerarmos uma política de reaplicação em escala de SAFs para toda a Amazônia? Gomes - No início da década de 80, houve um grande erro com relação aos SAFs. Na época, pensou-se muito na aplicação individual do sistema. Como caça, peixes e até sementes se deslocam continuamente pela floresta, os SAFs têm de vir atrelados a um debate da comunidade e dos vizinhos com relação a sua implementação. Não adianta, por exemplo, eu fazer meu SAF se meu vizinho faz barragens que impedem o peixe de chegar até a minha área. Ou então que ele mate as caças que podem enriquecer o meu sistema. Se não há o debate do coletivo, a coisa fica realmente complicada. RTS - Como avalia a relação do conhecimento gerado hoje pelas universidades da região com as necessidades da população que vive na Amazônia? Gomes - Ainda precisamos avançar muito. Temos, por exemplo, uma série de boas práticas que ainda não têm validação científica. O manejo comunitário de camarão de água doce é um destes casos que não teve ainda uma universidade a auferir cientificamente o alcance de reaplicabilidade da prática. Quanto, aliás, cresce determinada árvore que serve ao extrativismo? Esta é uma informação que todo técnico gostaria de ter e que a academia não consegue oferecer como suporte. No Amazonas, por exemplo, como está o estoque de peixes na calha? Dentro do rio, estamos indo bem ou mal? Estudos científicos poderiam estar trabalhando essa pesquisa também, mas a verdade é que aqui agricultores, Ongs e universidades trabalham quase de forma paralela. RTS - Já há uma série de práticas sustentáveis e tecnologias sociais desenvolvidas para o contexto da Amazônia. Qual a melhor estratégia para fazer estes conhecimentos chegarem a quem deles necessita? Gomes - Estruturalmente, precisamos readequar a grade curricular e o método de ensino. Temos aqui uma iniciativa conhecida como Casa Familiar Rural que já trabalha nessa direção. Lá o jovem estuda com temas diretamente relacionados a sua realidade. Quando o tema é o açaí, por exemplo, a matemática, a geografia, a história e todas as outras disciplinas avançam a partir da reflexão sobre este tema. Lá o técnico agrícola não impõe mais determinado conhecimento, mas constrói conjuntamente com os jovens as soluções baseado no conhecimento acumulado que eles já têm sobre as características da própria região. Quem tem o questionamento sobre determinado problema é quem vive. E é aí que a curiosidade caminha para a ciência. Por Vinícius Carvalho, jornalista do Portal da RTS. |
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