Tecnologias sociais fortalecem geração de trabalho e renda
O desenvolvimento com distribuição de renda deve ser um objetivo de toda a sociedade brasileira. Assim, estaremos buscando o desenvolvimento econômico, social e de outras dimensões - o que a todos interessa - e combatendo um dos mais cruéis aspectos da desigualdade, marca inquestionável do Brasil, que é a concentração de renda. A economia solidária, mesmo considerando suas limitações quando considerada a grandeza da economia brasileira, é um importante instrumento de inserção produtiva, inclusão social e geração de trabalho e renda para amplos setores marginalizados da sociedade.
É, portanto, buscando, dar relevância à economia solidária como parte do processo de aceleração do crescimento que destaco o papel que podem e devem cumprir as tecnologias sociais. Estas precisam estar incluídas em cada atividade, em cada empreendimento, dentro da compreensão que o conhecimento, assim como o capital, também é importante fator para o desenvolvimento. Todo e qualquer empreendimento, em qualquer setor da economia, tem na tecnologia um aspecto considerável determinante de seu sucesso ou insucesso. Assim como os mais modernos parques industriais na indústria aeronáutica, na tecnologia da informação e em outros campos são reconhecidos pelo uso intensivo da tecnologia, os empreendimentos de economia solidária também precisam de se apropriar do conhecimento.
As tecnologias sociais são igualmente tecnologia, porém, de outra natureza e conceituação, de forma a servir a processos como os da economia solidária, onde é forte o componente de combinação do saber técnico-científico com o saber popular. Onde ganha relevância junto com o que fazer, o como fazer e o aprender fazendo.
É como parte desta compreensão que entendo tecnologia social como todo método, processo ou artefato, desenvolvido em interação com a comunidade, que promova transformação social e que tenha condição de ser reaplicado em escala, em outros lugares ou territórios. Quer dizer, uma solução social, conhecida por determinado grupo da sociedade, deve ser transferida para outras regiões que convivam com o mesmo problema social.
A partir deste conceito e compreensão das tecnologias sociais e do significado e das possibilidades da economia solidária, percebo a economia solidária e as tecnologias sociais como pares prontos para um casamento perfeito, num país onde milhares de trabalhadores foram excluídos pela modernização produtiva, pela falta de oportunidades educacionais e de capacitação produtiva, agravado por duas décadas de estagnação econômica e com um grande contingente de pessoas que migrou de zonas rurais ou nelas permaneceram.
Meio ambiente – É neste contexto, e com esta compreensão, que realizamos os investimentos sociais da Fundação Banco do Brasil. O exemplo das tilápias de Miguelinho, no programa Água Doce, mostra como nossas ações respeitam as dimensões humana, econômica e ambiental.
O reúso dos efluentes da dessalinização da água salobra, nos estados do semi-árido, resulta em água potável, mas o rejeito, o sal, é agressivo ao meio ambiente, danificando a terra. Já misturado à água de criatórios de peixes, ajuda no desenvolvimento da tilápia rosa, que se reproduz muito bem nestas condições. Os peixes são comercializados pela comunidade e a arrecadação realimenta o conjunto, gerando trabalho e renda. Além disso, na mesma área, cultiva-se a erva-sal, apropriada para alimentação de ovinos e caprinos. A tecnologia social evita, assim, a contaminação do solo e do lençol freático, reunindo, desta maneira, vantagens humana, econômica e ambiental.
Francisco das Chagas de Azevedo, o Miguelinho, tem 53 anos e vive com mulher e sete filhos no assentamento de São José do Seridó (RN). Escolhido pela comunidade para ser o tesoureiro da comissão de gestão da tecnologia social Água Doce, conta que o desmatamento acabou com a água da região. O dessalinizador ajudava, no começo, mas causava outros problemas, relembra. No início, Miguelinho não gostou muito da idéia da nova tecnologia social: dizia que iam jogar a água cheia de sal no solo, mas, após conversar com os técnicos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e entender como funcionaria o sistema, aprovou a idéia e está satisfeito com a possibilidade de a comunidade ter peixes na mesa a cada três meses. Os maiores ganhos, para Miguelinho, foram, sem dúvida, o conhecimento adquirido pela comunidade desde o início do projeto e a renda proveniente da produção das tilápias.
Reaplicação - Criado pela Embrapa Semi-Árido e implementado com investimentos sociais da Fundação Banco do Brasil e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) no Rio Grande do Norte, o complexo está sendo reaplicado, inicialmente, em 22 comunidades de 11 estados: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. O projeto-piloto foi iniciado em Petrolina (PE), em 2003.
Destaco o caso do Programa Água Doce como exemplo que mostra, de forma eficiente, a forma de como, na Fundação Banco do Brasil, trabalhamos a relação entre tecnologia social: uma solução eficiente encontrada por uma comunidade que é levada para diversas outras, a partir do trabalho de uma rede que envolve a população, o governo e a iniciativa privada.
* Presidente da Fundação Banco do Brasil




