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O sonho do crescimento sustentável

Por Alcides Amaral*

05/11/2008 - O sonho de todo governante de um país democrático ou daqueles países que pelo menos seguem a estrutura mestra das regras de mercado, é poder oferecer  à sua população aquilo que hoje se tornou muito comum : o crescimento sustentável. Sustentabilidade que, de acordo com o dicionário Houaiss, é "característica ou condição do que é sustentável", tornou-se comum nos dias de hoje, pois todos queremos , seja em termos de país , da empresa ou de nós mesmos , pessoas físicas, viver de maneira sustentável, sem altos e baixos, podendo planejar para um futuro melhor.

Infelizmente, embora essa seja a teoria, a realidade é muito diferente. Somos, empresas ou pessoas físicas, que dependem de uma engrenagem mais ampla que se chama "País" no qual vivemos. E hoje, com o mundo globalizado , quase sem fronteiras, não importa apenas o que acontece no nosso território, mas sim no mundo todo. Tudo isso para dizer que dependemos uns dos outros e quando nosso presidente Lula fala que "estamos num regime de crescimento sustentado" , é mais um desejo seu do que a realidade. O mundo passou por um curto período de "céu de brigadeiro", onde todas as águas corriam suavemente em direção ao mar. Tudo dava certo, a economia mundial ia bem, a China crescia exponencialmente e o Brasil , embora sendo uma espécie de "último vagão" do trem do desenvolvimento sustentado , avançava a taxas superiores aos últimos 20 anos, alcançando uma elevação do PIB superior em 5% no ano de 2007. Chegamos a ser premiados com o "investment grade", por duas importantes companhias de "rating" dos Estados Unidos,  que hoje é de pouca validade. Inicialmente, porque elas perderam a pouca credibilidade que já possuíam pois não foram capaz de prever o "bolha imobiliária" que se formava na terra do Tio Sam. E,em segundo lugar,  na nossa visão, o "investment grande" foi dado olhando-se pelo retrovisor. Isto é, essas "conceituadas" companhias de rating analisaram o que aconteceu até 2007 e esqueceram - ou não foram capazes - de olhar um pouco mais para frente, o que deverá acontecer em 2008, 2009 e, quem sabe 2010.

Como era esperado, a "bolha imobiliária" estourou e com ela a economia norte-americana  entrou em pânico. O sistema financeiro praticamente quebrou - isso só não aconteceu graças à ação do FED  - e o fantasma da recessão passou a rondar o país tido como o mais rico do mundo. Não bastasse, face à elevação acelerada do preço das "commodities", a inflação passou a incomodar, embora os índices oficiais não representem a realidade. Lá nos Estados Unidos, o combustível (o barril do petróleo ultrapassou a barreira dos US$ 100) e a alimentação não entram no cálculo da inflação. A conclusão é que o povo americano está gastando muito mais para viver do que os índices inflacionários oficiais demonstram.

Obviamente a crise financeira e econômica dos Estados Unidos alastrou-se pelo mundo desenvolvido, e há muitos que ainda acreditam que o impacto nos países emergentes - como o nosso Brasil - será menor pois não participaram daquele cassino financeiro que foram os anormais preços do mercado imobiliário norte-americano. A China está aí, como a nova potência, crescendo ao redor de 10,0% ao ano e mantendo o crescimento mundial ainda a níveis toleráveis, pois compra muito e caro de alguns países emergentes. E, mais uma vez, o Brasil torna-se privilegiado, pois como grande exportador de "commodities" consegue aumentar nossas divisas em dólares - apesar da supervalorização do real - pois exportamos soja, minério de ferro e assim por diante. O que poucos se lembram, entretanto, é que o PIB  da  China vem crescendo a taxas de 10,0% pois a base da economia era muito pequena. Na medida em que a China tornou-se uma potência, o crescimento daqui para frente será necessariamente menor.. A China continuará sendo ainda uma grande importadora de commodities (por necessidade), mas em contrapartida será ainda mais agressiva nas exportações, o que torna praticamente impossível competir com centenas de produtos que produzem face aos baixos preços praticados.

Para nós aqui no Brasil, que tivemos e ainda temos as commodities como "âncora" da economia , a situação começa a agravar-se. A valorização exagerada da nossa moeda ,o real, fez com que nossa balança comercial ficasse refém desses produtos primários, sem nenhum valor agregado. A indústria foi praticamente destruída na sua capacidade de exportar, com exceção de algumas grandes empresas , e o resultado é que depois de obtermos um superávit comercial de mais de US$ 35 bilhões em 2007 , neste ano de 2008 ficaremos ao redor de US$ 20 bilhões e em 2009 fica difícil prever, pois a curva é claramente descendente. O déficit de contas-correntes agrava-se acentuadamente, tendo registrado um déficit de US$ 17,4 bilhões no 1º semestre de 2008, com perspectivas mais negativas a cada dia que passa. Como a situação lá fora , onde as sedes das multinacionais ficam instaladas, está difícil, as filiais aqui localizadas enviam tudo que podem para o exterior o que fez com que , ajudado pelas importações , o mês de julho registrou a maior saída de dólares do país desde dezembro de 2006.

Portanto, falar em crescimento sustentado neste país nas condições atuais , é acreditar em Papai Noel ou ignorar o que está acontecendo no mundo e  no nosso país. Teremos um problema de balança de pagamentos aí pela frente - muito diferente daqueles originados pelo alto endividamento governamental perante os bancos internacionais - pois pouci de prático se faz para que esse quadro negativo e evidente seja revertido. Os problemas fiscais para 2009 também serão relevantes face às despesas já assumidas com os benefícios previdenciários e despesas com os servidores públicos. Nossa carga tributária já está num limite (a redor de 36,0%) que não permite mais nenhum avanço pois, simplesmente, tanto os indivíduos como as empresas não suportam conviver com maiores tributos.,

Para o Brasil o "investment grade" veio em má hora - deixou-nos a todos acreditar que nossas condições futuras são melhores do que a realidade  mostra - e de nada valerá , face o  fluxo crescente de dólares saindo para o exterior. Estamos hoje sendo basicamente financiados por dinheiro de curto prazo, que aqui chega para arbitrar contra nossa alta taxa de juro real. O que  aprendi ao longo da minha vida lidando com o mundo financeiro internacional, é que o dinheiro estrangeiro quando  sai a  velocidade é bem  maior do que entra.

Como nenhuma reforma estrutural será efetuada neste governo, só nos resta torcer para que a crise internacional dure pouco tempo para que possamos começar a pensar, novamente, em crescimento sustentado. Pois, nas condições atuais, temos que ter um bom guarda-chuva pois mais cedo ou mais tarde a tempestade virá.


* Alcides Amaral é jornalista, ex-presidente do Citibank S/A e autor do livro "Os limões de minha limonada".


Fonte: Envolverde/Revista Plurale

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