|
|
Conhecimentos endógenos no centro da prática para a convivência plena com o Semi-Árido
Por Antonio Gomes Barbosa*
14/08/2008 - Aproveitamos este espaço para socializar e trazer à reflexão o importante papel desempenhado pelo monitoramento de processos coletivos na produção de conhecimentos e de saberes. São agricultores e agricultoras que, através de visitas horizontais de intercâmbios e das sistematizações de suas experiências, constróem e ajudam a fortalecer estratégias de formação e mobilização social para a convivência com o Semi-Árido. São inúmeras as experiências, inovações, adaptações, descobertas e redescobertas que se complementam e edificam novos conhecimentos. São cisternas, barragens subterrâneas, tanques de pedra, barraginhas, barragens sucessivas, cisternas de produção, barreiros trincheiras, casas de semente, silos, fenos, criação de pequenos animais, feiras agroecológicas, fundos rotativos solidários, manejo da caatinga, agroflorestas, gestão comunitária de fundo de pasto, farinhadas e tantas e tantas outras formas de conhecimentos construídos. As experiências mobilizam os intercâmbios e as sistematizações, que, por sua vez, mobilizam novos intercâmbios e novas sistematizações. Trata-se do aprendizado a partir do exercício da troca, do registro das informações e da visibilidade das práticas. As experiências sistematizadas viram boletins, cartas, vídeos, programas de rádio, peças de teatro, cordéis, aboios, etc. As visitas de intercâmbio possibilitam que agricultores e agricultoras, a partir da troca de informações, observem, descubram, discutam e reformulem suas práticas. São experiências de homens e mulheres que criam a cada instante, re-significam seus espaços, resolvem de forma solidária seus problemas e estabelecem várias formas de comunicação. A nós, organizações de assessoria e equipes técnicas, cabe a tarefa de favorecer a reflexão, a solidificação de princípios e a produção e reprodução de novos saberes. Para a Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA), a grande inovação, nesta perspectiva, é poder perceber que a tão sonhada solução para os problemas do meio rural está justamente onde menos se buscou atentamente: no próprio Semi-Árido. Ao invés de ensinar e resolver os problemas, aprender. No lugar do complicado ou complexo, são as ações simples que permitem o manejo adequado dos solos, as muitas formas de captar e armazenar a água e o trato correto da agrobiodiversidade. O grande, o complicado e o longe passam a dar lugar ao pequeno, ao simples e ao perto. A solução de quem tem sede é ter água para beber, a solução para quem tem fome é ter comida em quantidade e qualidade. Simples, porém distante de milhares. O conhecimento endógeno, produzido pelas famílias, é o principal patrimônio do Semi-Árido. O que está se propondo é dar visibilidade e utilizar as experiências desenvolvidas como estratégias de desenvolvimento sustentável. Conviver com a região exige transformar estas experiências em políticas públicas. O Semi-Árido é o ecossistema brasileiro com a maior quantidade de famílias no meio rural, ao mesmo tempo, na contramão da história, é também onde está o maior percentual de terras agricultáveis nas mãos de usineiros, pecuaristas, grandes irrigantes, latifúndios improdutivos e coisas do tipo. Estima-se que apenas 4 a 6% das terras agricultáveis estejam em posse dos agricultores, o que torna a labuta com a terra um desafio ainda maior. Diferente do que pensam alguns, o Nordeste brasileiro apresenta uma disponibilidade hídrica anual de 700 bilhões de m³. Temos o Semi-Árido mais chuvoso do mundo. Por outro lado, somente um pouco mais de 24 bilhões de m³ permanece efetivamente disponível, o restante, 97%, é consumido pelo fenômeno da evaporação que, em média, no Semi-Árido, atinge 2.000mm anuais, mais do que o dobro da média das chuvas, 700mm, e pelo escoamento superficial (Rebouças & Marinho 1972). Visibilizar as experiências e as Tecnologias Sociais (TS) é trazer para perto das pessoas o que quase sempre é mostrado de longe. É um convite à reflexão sobre o cotidiano da prática, sobre o que move nossas organizações, sobre a necessidade de responder necessidades. Os números apontam caminhos que podem ser modificados. Porém, exige uma postura firme e segura de quem tem o poder de definir e implementar as políticas públicas. São as pequenas iniciativas que, quando somadas, viram grandes. Bom exemplo é o Programa Um milhão de Cisternas - P1MC, que permite a cada família acessar 16 mil litros de água ao lado de sua casa. Será a disponibilidade de água potável para cinco milhões de pessoas. Serão 16 bilhões de litros armazenados. Significa guardar 1,4% de toda precipitação média da região. A experiência do P1MC tem mostrado que é preciso avançar em outras frentes. São antigas necessidades que se mostram e precisam de respostas. Enquanto sociedade civil, a ASA apresenta o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2). Traz para o centro do debate o tema segurança e soberania alimentar a partir do acesso e manejo da terra e da água para a produção sustentável de alimentos. Ainda em 2007, articulado pela Rede de Tecnologias Sociais (RTS), com apoio da Fundação Banco do Brasil e Petrobras, a ASA iniciou em sua fase demonstrativa o P1+2, o que permitiu a formatação e a visibilidade do programa. Tal ação foi a responsável para que hoje se possa contar com recursos do orçamento da União, através do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome (MDS), do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e da CODEVASF. Vale também destacar o importante papel propositivo desempenhado pelo Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA), que tem pautado o P1+2 como importante iniciativa de segurança e soberania alimentar para o Semi-Árido brasileiro. O desafio continua sendo o de catalogar, sistematizar, divulgar e ampliar as muitas experiências desenvolvidas. A tarefa é consolidar o método e poder influenciar diretamente nas políticas públicas. A estratégia é trazer para o diálogo todos e todas que querem construir um mundo mais justo e com disponibilidade de água e alimentos em quantidade e qualidade para todos e todas. Bom debate. *Antonio Gomes Barbosa é sociólogo e coordenador do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2), da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA). |
|
Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática |
|