|
|
Tecnologia Social: isso serve para que mesmo?
Por Gilmar Gomes e Cássio Luciano Becker*
22/12/2010 - Está em voga uma nova expressão para designar algo que é tão antigo quanto o homo sapiens(3). Trata-se da Tecnologia Social cuja definição encontra-se disponível no sítio www.rts.org.br: “...compreende produtos, técnicas ou metodologias, reaplicáveis, desenvolvidas na interação com a comunidade e que representam efetivas soluções de transformação social.” Ao contrário do que se possa crer, tecnologia é um termo que não foi cunhado na Revolução Industrial, pois antes dela já havia trabalhadores. O termo tem origem no grego “technos: ofício, profissão” e “logos: saber, estudo, conhecimento”. Denota, assim, o saber acumulado dos trabalhadores. Saber esse que é necessariamente social. A rigor, a tecnologia social não pode ser considerada como um conceito. Incapaz de contribuir para uma leitura da realidade, a Tecnologia Social resume-se a uma expressão que, grafada, realça sua própria indefinição. O risco de seu uso de forma acrítica pode ampliar ao invés de reduzir o fosso que separa os donos das palavras daqueles que tiveram o direito à palavra usurpado. Portanto, se todo instrumento, equipamento, método ou artefato criado pelo homo – que tem como objetivo potencializar as ações humanas ou permitir um salto de qualidade na organização social, econômica, política ou cultural – é tecnologia, então toda a tecnologia é social, pois essas ações só podem ocorrer em sociedade. Ao designar como Tecnologia Social a aplicação de técnicas, de alternativas à “tecnologia convencional” direcionadas para a pobreza, pode-se estar condenando grande parte da sociedade a jamais poder acessar as tecnologias produzidas pela humanidade. Se a tecnologia produzida nesta sociedade interessa a estas camadas sociais (excluídas), é uma pergunta; entretanto, se não interessa, surge outra questão: qual a tecnologia necessária aos excluídos e, no caso da análise deste artigo, aos trabalhadores da economia popular solidária? A preocupação aqui é que, no afã de se encontrar a tecnologia para os pobres, esteja-se sacramentando a discriminação ao projetar somente equipamentos de baixo investimento tecnológico ou mesmo arcaicos. Equipamentos que não concorram com a “tecnologia capitalista”. Ao propor tecnologia “pequena”, de baixo custo, com a preocupação de tornar os produtos da economia solidária “competitivos”, como têm feito alguns autores que publicam na RTS, esteja-se determinando que os pobres jamais poderão deixar de ser pobres, pois sua produção não terá escala. Parece que este não deve ser o foco. Autores como Renato Dagnino (4), Ricardo Neder, Henrique Novaes e Rodrigo Fonseca têm debatido a questão da tecnologia e provocado a discussão sobre qual tecnologia interessa ao desenvolvimento da economia solidária. A tônica da discussão que estes autores trazem diz respeito à busca de uma tecnologia que de fato contribua para potencializar as produções nos empreendimentos, e isso nada tem a ver com tamanho do equipamento ou com o investimento tecnológico aportado, mas sim com outra tecnologia, adequada às necessidades de uma produção que, no caso em análise – a economia solidária - , há que se diferenciar do modo de produção do capital. As máquinas, as técnicas, os equipamentos de que a economia solidária precisa devem se diferenciar pelos objetivos que cumprirão, quais sejam: emancipar o homo, gerar desenvolvimento (local, territorial?), e buscar uma relação com o ambiente no caminho da sustentabilidade. Se, então, trata-se de criação de tecnologia, espera-se que os centros de pesquisa, centros de saber, universidades sejam os projetistas destas novas técnicas. Sabe-se, desde Milton Santos, que o período atual se caracteriza por um número infindável de novas técnicas, tecnologias de ponta e invenção do ciberespaço, mas que também nunca foi tão grande o número de pessoas que no planeta estão excluídas do acesso a essas inovações ou que as acessam de forma subordinada e alienada. Denominou esse período como técnico-científico informacional. Suas marcas são a rapidez da informação nunca vista antes, a contração do espaço-tempo e o ressurgimento das comunidades territoriais (SANTOS: 2000). A economia solidária é tributária dessa nova fase do capital e, em um movimento contra-hegemônico, reage, criando formas alternativas de produção, comercialização e consumo. A economia solidária precisa de tecnologias que correspondam a essas formas novas de produção da vida. A questão a ser enfrentada é que os centros de saber não respondem a essa demanda, e a base dessa negação localiza-se na própria incapacidade das universidades de gerar outro conhecimento; o gerado nas universidades é inadequado para atender as demandas deste segmento. Essa inadequação está presente no conhecimento produzido e, muitas vezes, ela é levada para as esferas de governo e, mesmo quando há preocupação em executar políticas públicas para a economia solidária, esbarra-se nessa questão. Eis por que as políticas públicas mostram-se também inadequadas. Dagnino (2009) chama isso de inadequação cognitiva. A Universidade tem um conhecimento; verifica-se, entretanto, que este não é apropriado; é estéril na medida em que não percebe as junções necessárias para operar com a realidade vivida pela pobreza em nosso país. Compete aos militantes do movimento da economia solidária, especialmente por meio das Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs), desafiar a Universidade às respostas que são necessárias para a criação dos instrumentos de construção da nova sociedade, pois ela tem todos os elementos para que possa constituí-lo. A experiência que será relatada a seguir não se trata de nova tecnologia, mas de inovação de um conjunto de técnicas com vistas à criação de um espaço de comercialização de produtos da economia solidária. O espaço Contraponto: entreposto de saúde, cultura e saber buscou inovar em muitos sentidos com o objetivo de provocar uma discussão no interior da comunidade acadêmica, mas com pretensões de que essa discussão extrapole os muros da universidade, em primeiro lugar, pela sua própria concepção. O projeto arquitetônico, construído pela Faculdade de Pós-Graduação em Arquitetura da UFRGS, foi pensado a partir da técnica da bioconstrução. Foi projetado para poder ser montado no campus universitário; se necessário pode ser desmontado e montado em outro espaço (arquitetura efêmera). A idéia inicial do Projeto surgiu após constatação de que os espaços públicos são, de modo geral, apropriados de forma até ostensiva por interesses privados, mormente a serviço do grande capital, como é o caso dos bancos. Neste caso, reivindica-se que, se a Nestlé e a Coca-Cola, detentoras de grande volume de capital, podem usufruir desses espaços, parece justo que se permita também a comercialização de produtos da economia solidária, formada por pessoas com quase nenhum capital. O Projeto inovou também nas formas de gestão com o conselho político (do qual fazem parte os Empreendimentos de Economia Solidária – EES) para gerir a loja; trouxe a questão do consumo consciente para discussão e priorizou comercialização de produtos orgânicos. Em relação às questões anteriormente referidas em relação à criação de tecnologias para as demandas dos EES, o Espaço tem a pretensão de suscitar junto às áreas do conhecimento a criação de técnicas, máquinas e métodos que de fato sejam adequados a essas novas formas de produção, comercialização e consumo, fazendo jus à pretensão da economia solidária – ECOSOL de oferecer produtos que sejam socialmente justos e ambientalmente corretos. Essas medidas, embora resultem em tentativas de gerar novas relações humanas e de produção, só se realizarão plenamente quando, de forma macro, toda a sociedade for transformada. As estratégias contra-hegemônicas estabelecidas nessas tentativas constituem passos concretos para o processo de plena transformação econômica, política e social.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASDAGNINO, Renato. A tecnologia social e seus desafios. In: LASSANCE JR., Antonio et a. Tecnologia social: uma estratégia para o desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundação Banco do Brasil, 2004. p. 187-216. Disponível em: http://www.ige/unicamp.br/gapi. Acesso em: set. 2010_______. Tecnologia social: ferramentas para construir uma outra sociedade. Campinas: IG/UNICAMP, 2009.NEDER, Ricardo T. (Org.) Andrew Feenberg: racionalização democrática poder e tecnologia. Brasília. Observatório pelo movimento da tecnologia social na América Latina / CDS / UnB / Caps, 2010.NOVAES, Henrique T. (Org.) O fetiche da tecnologia: a experiência das fábricas recuperadas. São Paulo: Expressão Popular, 2008.SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.3-Expressão que designará o ser humano independentemente de gênero.4-Renato Dagnino, Henrique Novaes e Rodrigo Fonseca travam uma interessante discussão sobre a temática da tecnologia e sua aplicação nos EES em: Tecnologia Social – ferramenta para construir outra sociedade. Campinas, SP. IG/UNICAMP, 2009.
*Autores: Gilmar Gomes e Cássio Luciano Becker. Integrantes do Núcleo de Economia Alternativa/ITCPS-UFRGS: Incubadora de Cooperativas Populares, programa de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fonte: Publicação “Tecnologias Sociais – experiências e contribuições para o desenvolvimento social e sustentável”, organizada por Rosa Maria Castilhos Fernandes e Ana Lúcia Suárez Maciel |
|
Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática |
|