Portal RTS - Rede de Tecnologia Social



Informativo Eletrônico

E-mail*
Nome

                                             Twitter    YouTube    Aumentar o tamanho da fonte Voltar ao tamanho padrão de fonte Diminuir o tamanho da fonte
Ações do documento

O papel da tecnologia social para o desenvolvimento sustentável

Por Jacques de Oliveira Pena*

17/09/2010 - Desde o início da evolução humana, buscamos formas alternativas para o nosso desenvolvimento. Seja por meio da fala, de ferramentas ou de associações para superar barreiras. Nos últimos tempos, nos acostumamos à expressão Tecnologia Social sem compreender exatamente o que isso significa.

Para a Fundação Banco do Brasil, o conceito de Tecnologia Social percorre as experiências desenvolvidas nas comunidades urbanas e rurais, nos movimentos sociais, nos centros de pesquisas e nas universidades que podem produzir métodos, técnicas ou produtos que contribuam para a inclusão e a transformação social, em particular quando desenvolvidas em um processo no qual se soma e se compartilha o conhecimento científico com o saber popular. Com base nisso, os programas e as ações desenvolvidas pela Fundação Banco do Brasil, tanto no âmbito da educação como na geração de trabalho e renda, são geridos de forma transversal à Tecnologia Social.

Muitas experiências foram desenvolvidas no Brasil, nos últimos anos, tendo como perspectiva a construção do desenvolvimento local, com sustentabilidade. Nesse processo, busca-se ao mesmo tempo dinamizar as potencialidades locais e desbloquear aqueles entraves que impedem este potencial de se realizar. Grupos e comunidades organizadas, ou em organização, presentes em todo o país buscam levar adiante projetos de geração de trabalho e renda nas mais diversas realidades, seja no campo ou nas pequenas, médias e grandes cidades.

Nos povoados com características do mundo rural em atividades tradicionais que vão do artesanato, casas de farinha, produção de galinha caipira, produção de rapadura ou cachaça ou nas atividades mais novas da apicultura, piscicultura, fruticultura ou nas cidades grandes, na reciclagem, nos espaços de inclusão digital e nas rádios comunitárias, entre outras atividades, milhares de pessoas desenvolvem empreendimentos econômicos e solidários, dos quais muitos contam com a parceria da Fundação Banco do Brasil.

No âmbito rural, os principais programas de reaplicação de tecnologias sociais desenvolvidos pela Fundação Banco do Brasil giram em torno das Barraginhas, Fossas Sépticas Biodigestoras para Áreas Rurais e Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (Pais). As Barraginhas são uma tecnologia social que consiste na construção de barragens contentoras de enxurradas para armazenamento de água a ser utilizado na agricultura local. Esse processo, em um primeiro momento, freia a degradação do solo, evitando a desertificação e, em um segundo momento, revitaliza mananciais, nascentes e córregos, suavizando a seca.

As Barraginhas podem ser complementadas com curvas de nível, outro mecanismo para contenção de erosões, assoreamentos e fontes poluidoras veiculadas pelas águas. Esse sistema força a recarga das reservas subterrâneas e armazena água de boa qualidade no solo, por meio da infiltração ocorrida durante o ciclo chuvoso. Isso ameniza os efeitos das secas e veranicos em lavouras localizadas em partes úmidas

de baixadas. Além disso, permite-se o plantio de pomares, hortas e canaviais nas partes baixas das barraginhas, bem como a construção de cacimbas e cisternas para o fornecimento de água para consumo humano e animal, diminuindo ou eliminando a necessidade do caminhão pipa nessas regiões.

Já as Fossas Sépticas Biodigestoras para Áreas Rurais se propõem a realizar o tratamento do esgoto em comunidades sem esgotamento, transformando os dejetos humanos em adubo orgânico líquido, que é rico em macro e  micronutrientes e pode ser utilizado para complementar a adubação de NPK. O uso desse adubo produzido pela fossa representa uma grande economia para o produtor.

O Pais, por sua vez, é uma produção agroecológica sustentável que dispensa o uso de ações que causam danos ao meio ambiente, aliando à criação de animais com produção vegetal, utilizando insumos da propriedade em todo o processo e preservando a qualidade do solo e das fontes de água. Além da produção familiar de alimentos sem agrotóxicos, a tecnologia social Pais ainda incentiva o associativismo e aponta novos canais de comercialização do excedente da produção. Com a integração dessas tecnologias, a Fundação Banco do Brasil pretende atuar nos pilares da preservação ambiental, segurança alimentar e geração de renda.

Nas grandes cidades, onde o volume de lixo é extremamente elevado, e o índice de pessoas excluídas socialmente é alto, os investimentos na cadeia produtiva dos recicláveis são vistos como uma possível resposta para esses problemas. O que será feito com o lixo que produzimos não é mais a única questão a ser respondida. Quais áreas serão reservadas para os depósitos de lixo, se não existem áreas disponíveis? Como reaproveitar materiais sem uma política pública específica? E quais as consequências da poluição para os recursos hídricos e o clima?

Ainda são perguntas sem uma reposta definitiva e eficaz. A atuação da Fundação Banco do Brasil em projetos de reciclagem inclui a promoção da capacitação, assistência técnica, fortalecimento, e diagnósticos de organizações e movimentos de catadores; e no assessoramento e consolidação de Cooperativas de Coleta Seletiva. Atualmente, o foco dos investimentos sociais da Fundação é a consolidação de centrais de comercialização. Assim, a Fundação Banco do Brasil já implantou e organizou, com parceiros institucionais e movimentos sociais, redes de comercialização de materiais recicláveis em cinco regiões metropolitanas do país. Essa abordagem em rede já nos deu exemplos de efetividade e nos mostrou a gravidade do problema a ser enfrentado.

Assim, entendemos que as políticas públicas dirigidas para o desenvolvimento local e sustentável podem e devem se apropriar das Tecnologias Sociais, por serem soluções que agregam processos de aprendizagem e trocas coletivas, autogestão solidária e de construção social das próprias tecnologias. As tecnologias sociais têm estas características exatamente porque nascem da criatividade e do processo de amadurecimento das forças sociais e produtivas, construídas por brasileiros que acreditam que é possível transformar o Brasil em um país menos desigual e mais solidário.


*Jacques de Oliveira Pena é ex-presidente da Fundação Banco do Brasil

Fonte: Publicação “Tecnologia Social e Desenvolvimento Sustentável – Contribuições da RTS para a formulação de uma política de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação”

Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática