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O desafio da inovação para as micro e pequenas empresas

Por Juarez de Paula*

28/07/2010 -  Os pequenos empreendimentos produzem em pequena escala, o que  geralmente implica numa significativa  redução da sua competitividade em  termos de preço final do produto. Isso  não significa que a pequena produção seja  economicamente inviável. Apenas evidencia  que os pequenos negócios precisam investir  decisivamente em inovação.

Quando não dispomos de um produto  capaz de apresentar vantagem sobre os  seus concorrentes pelo menor preço, a  alternativa é apresentar outros tipos de  vantagens, decorrentes de atributos de  qualidade que promovam a diferenciação do produto. É justamente  esse o papel mais relevante da inovação nos pequenos negócios.

Entretanto, é necessário compreender o conceito de inovação de  uma forma mais abrangente. Geralmente associamos inovação à  idéia de “alta tecnologia” ou de “tecnologia de última geração”. Esse,  certamente, é um dos significados possíveis. Porém, também é certo  que o acesso das pequenas empresas a esse tipo de tecnologia é  geralmente bastante difícil. Existem outras formas de inovar.

As “tecnologias sociais” – soluções de baixo custo, de fácil reaplicação,  desenvolvidas em interação com as comunidades locais, adaptadas  às diversas realidades territoriais e capazes de gerar inclusão social –  são uma forma acessível de facilitar o acesso das micro e pequenas  empresas à ciência, à tecnologia e à inovação.

O modo de inovação mais evidente, mais facilmente perceptível,  é a inovação do produto. Criar um produto inovador, sem similares  no mercado, é certamente a forma mais absoluta de diferenciação.

Isso geralmente está associado a investimentos em pesquisa e  desenvolvimento. Muitas vezes, o custo de pesquisa e desenvolvimento  de um novo produto pode ser bastante elevado, mas nem sempre.

O algodão naturalmente colorido desenvolvido pela EMBRAPA e  transformado em produto pela marca Natural Fashion - PB; as embalagens  biodegradáveis produzidas a partir da fécula de mandioca desenvolvidas  pela CBPAK - SP; a domesticação e reprodução controlada da “Sempre-  viva” - uma flor nativa do cerrado brasileiro – conseguida pelo pesquisador  Luiz Gluck Lima - MG, possibilitando a redução do extrativismo e  transformando-a em produto de floricultura; a utilização de óleos,  essências e extratos naturais da nossa biodiversidade pelas indústrias  de fármacos e cosméticos para o desenvolvimento de produtos, como os  novos bronzeador, protetor solar e creme hidratante da L’Occitane Brasil  - SP; são exemplos importantes de inovação de produtos.

Também é possível inovar através do marketing, da promoção  inovadora do produto, buscando mudar hábitos e valores de consumo,  apresentando um produto tradicional de uma forma mais prática e  atraente, mais adequada ao estilo de vida do público-alvo que se quer  atingir, ampliando a sensação de satisfação dos desejos e necessidades  do consumidor final. Movimentos como o “Fair Trade” (Comércio  Justo) e como o “Slow Food” são exemplos inovadores nesta direção.

Outra forma de inovar é buscar a substituição de produtos por similares,  com vantagens adicionais nem sempre relativas a preço. É o caso do  mercado de agroenergia. O encarecimento do preço do petróleo resultante  da crescente escassez do produto e os efeitos ambientais da sua crescente  utilização – aquecimento global e mudanças climáticas – impulsionam a  busca por alternativas renováveis e limpas para geração de energia.

A produção de biogás e biofertilizante a partir de dejetos animais e a  produção de biodiesel e produtos saneantes a partir da gordura animal  descartada em atividades de abate, eliminando resíduos de forte impacto  ambiental, como na experiência da Fazenda Pork Terra - SP, pode ser  uma excelente e inovadora alternativa de produção de energia para  auto-consumo em médias e pequenas propriedades rurais, reduzindo  custos e preservando o meio ambiente.

Aproveitar o óleo vegetal utilizado em frituras como biocombustível  para motores diesel, evitando o seu descarte no meio ambiente, o que  geralmente implica na contaminação de recursos hídricos e obstrução  de tubulações de esgoto, com custos sociais muito expressivos, é outro  exemplo de produção de energia para o auto-consumo, absolutamente  viável para micro e pequenas empresas urbanas e rurais. A tecnologia  desenvolvida por Paulo Lenhardt, da ONG Morro da Cutia – RS, para  este fim, além de inovadora, tem as características de uma “tecnologia  social”, por ser simples, barata e geradora de qualidade de vida. 

Porém, também é possível demonstrar a viabilidade da participação  de pequenos empreendedores no competitivo mercado do etanol, a  exemplo da Cooperativa Pindorama - AL, proprietária de uma grande  usina produtora de açúcar e álcool, que inova ao não reproduzir o modelo  tradicional, seja pela integração do plantio de cana-de-açúcar com a  fruticultura e a horticultura, escapando da monocultura, seja pelo modelo  de gestão cooperativista e pela propriedade coletiva do empreendimento.

A forma mais comum de inovação é a busca pela diferenciação do  produto. Isso implica na valorização de atributos de qualidade,  que precisam ser comprovados para o consumidor através de  procedimentos de certificação.

Os produtos certificados como “orgânicos”, isto é, comprovadamente  produzidos sem a utilização de agroquímicos (fertilizantes, pesticidas,  antibióticos e outras substâncias que podem deixar resíduos químicos  nos alimentos) são um exemplo exitoso deste tipo de diferenciação. Os  produtos orgânicos são vendidos com preços geralmente superiores  aos convencionais e mesmo assim o mercado de produtos orgânicos  cresce a cada ano. É um forte sinal de mudança de hábitos de consumo,  onde o consumidor está cada vez mais preocupado com a aquisição de  produtos saudáveis e disposto a pagar mais por isso.

Empreendimentos de sucesso como a Fazenda Malunga - DF, a  Cooperativa de Agricultura Ecológica do Portal da Amazônia – MT,  a Cooperativa Justa Trama - RS, a CoopNatural - PB e os chás  Namastê - SE demonstram a potencialidade deste mercado. A própria  multiplicação da tecnologia social PAIS - Produção Agroecológica  Integrada e Sustentável demonstra o forte apelo da agroecologia como  um modo inovador de produção de alimentos.

Outra forma de diferenciação de produtos é a valorização de atributos  de qualidade resultantes de características territoriais, certificados  através das Indicações Geográficas e das Denominações de Origem dos  produtos. O vinho do Vale dos Vinhedos - RS, a Cachaça de Paraty – RJ,  a carne do Pampa Gaúcho da Campanha Meridional - RS e o Café do  Cerrado - MG são exemplos brasileiros deste tipo de certificação.

Há ainda uma forma de diferenciação de produtos através das  certificações de qualidade, com a obtenção de selos resultantes de  processos de auditoria regulados por normas de conformidade. As  certificações de qualidade com foco na sanidade e rastreabilidade  de produtos tendem a ser uma exigência de mercado cada vez mais  comum. Os exemplos dos produtores gaúchos de cachaça e dos  fruticultores do Vale do Rio São Francisco demonstram a importância  da certificação de qualidade como instrumento de inovação da gestão  dos processos produtivos.

Dar visibilidade a experiências deste tipo, evidenciar a importância  da inovação em seus diversos aspectos, inclusive a inovação nas  formas de organização dos pequenos empreendedores, valorizando o  cooperativismo e a gestão participativa, é outra forma de pensar o papel  da ciência e da tecnologia para a competitividade e a sustentabilidade  dos pequenos negócios.

*Juarez de Paula é sociólogo de Gerente de Desenvolvimento Territorial do Sebrae Nacional

 

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