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Erradicação da miséria e tecnociência

Por Renato Dagnino*

04/02/2011 - A erradicação da miséria fará emergir demandas materiais por bens e serviços com características e numa quantidade inusitadas.

Satisfazê-las atendendo os requisitos econômicos, sociais, culturais e ambientais complexos e originais existentes exige mobilização singular de nosso potencial de geração de conhecimento tecnocientífico.

Os requisitos, a abordagem interdisciplinar requerida, o tipo de situação-problema a equacionar e o modo de fazê-lo (com a participação de “usuários” até agora ausentes do cenário da produção de conhecimento), implicam um desafio jamais enfrentado.

É possível identificar dois tipos de bens e serviços relacionados à erradicação da miséria.

O mais óbvio é aquele atinente às necessidades básicas - alimentação, moradia, etc. – e que, para cumprir com o requisito de geração de trabalho e renda, deverão ser produzidos pelos segmentos sociais hoje marginalizados.

No segundo tipo estão os bens e serviços de natureza pública que o Estado deve proporcionar a todos os brasileiros (incluindo, é claro, os hoje excluídos). Necessários para implementar políticas públicas cujo custo se tem mostrado alto e crescente, eles são hoje quase exclusivamente adquiridos de empresas privadas.

A orientação de uma parte do enorme poder de compra do Estado para empreendimentos solidários formados pelos excluídos da economia formal aumentará a eficiência, eficácia e efetividade das políticas públicas. Entre outras coisas, porque se estará gerando trabalho e renda em espaços onde a tecnologia convencional - desenvolvida pelas e para as empresas – é crescentemente incapaz de fazê-lo.

A informação oficial permite estimar implicações e dificuldades associadas à incorporação desses trabalhadores à produção.

Sobre seu impacto potencial, veja-se que dos 160 milhões de pessoas que compõem a População em Idade Ativa, quase dois terços não trabalha em empresas; mas pode ser incluída na Economia Solidária.

Os empreendimentos solidários já geram 1% do PIB, ocupam 1% da população do País e estão aumentando 10% ao ano!

Para isso é urgente contar com conhecimento tecnocientífico apropriado alternativo ao convencional. Ou seja, se preferir o leitor, com o que tem sido chamado entre nós, em favor da brevidade, Tecnologia Social.

As dificuldades que invalidam “soluções” convencionais também podem ser estimadas.

Nos últimos 8 anos, 30 milhões de brasileiros excluídos que “ganharam o peixe” ajudaram a empurrar para cima o consumo e a produção. E foram gerados 15 milhões de empregos formais que permitiram absorver nosso crescimento populacional. Mas é pouco provável que programas compensatórios possam manter essa relação de 2:1. A inclusão produtiva dos que não serão absorvidos pelas empresas é vital para o crescimento.

Dos 33 milhões inscritos no Bolsa Família, só 18% se beneficiou dos empregos formais gerados. Quando isso aconteceu, permaneceram no emprego apenas 11 meses (contra os 62 da média nacional e os 134 daquela dos trabalhadores da OECD). E isso apesar de que 90% dos empregos eram de baixa “qualificação”.

Mas essa “baixa qualificação” dos excluídos, associada ao fato da produção daqueles dois tipos de bens e serviços não ter incorporado conhecimento tecnocientífico aderente àqueles requisitos, é o grande desafio. Fertilizar com ele a matriz cognitiva tradicional - dos pobres - é imprescindível para o “ensinar a pescar” que provocará o crescimento para todos.

Professores, pesquisadores, estudantes, movimentos sociais e gestores públicos, sob a coordenação do Ministério da Ciência e Tecnologia, terão um papel central, gratificante e proveitoso na erradicação da miséria.


Renato Dagnino é mestre em Economia e doutor em Ciências Humanas. É professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp e professor convidado em diversas universidades latino-americanas. (rdagnino@ige.unicamp.br)


Fonte: Folha de São Paulo

 

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