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As Tecnologias Sociais na Amazônia
Por Rubens Gomes , Joci Aguiar e Pedro César Batista*
21/07/2010 - O Grupo de Trabalho Amazônico (GTA) tem buscado cumprir um papel articulador e difusor das TecnologiasSociais na Amazônia. Criado em 1992, o GTA atua nos nove estados da Amazônia Legal, em uma rede com mais de 600 organizações, como as de ribeirinhos, de indígenas, de trabalhadores rurais, de mulheres, de comunicação, de direitos humanos, de quebradeiras de coco babaçu e de quilombolas, representando as populações tradicionais e os povos da floresta, com 18 coordenações regionais e um escritório central em Brasília (DF). As ações desenvolvidas pelo GTA estão voltadas para a execução de ações socioambientais que articulem as experiências existentes em produção, organização comunitária serviços sustentáveis mobilizando atividades econômicas de baixo custo, com retorno social, coletivas ou individuais, possíveis de serem replicadas, não provoquem danos ambientais e tenha papel transformador e inclusivo. As populações da Amazônia têm experiência milenar na convivência com a natureza, repleta de contradições e ensinamentos. Essa unidade, ou parceria, entre o meio ambiente e homem, inspira e fortalece a busca da sustentabilidade, o que tem assegurado a sobrevivência e o desenvolvimento histórico nessas relações. São 12 milhões de pessoas guardando e desenvolvendo o conhecimento produzido. As tecnologias convencionais predominam, mas a resistência e a ousadia possibilitam condições objetivas para a manutenção das condições de vida das comunidades presentes no Brasil. Os registros iniciais de seus primeiros moradores mostram a aplicação de muitas formas, utilizando-se das experiências vivenciadas para a construção de habitações, a produção de alimentos, de meios de circulação e de transporte, a medicina, o artesanato e para as comunicações. Essas formas de participação contrapõem-se ao sistema e aplicam características que lhes identificam como tecnologias sociais. O GTA aspira a fortalecer essa rede, construindo uma sociedade mais inclusiva. Habitação, alimentos, circulação, medicina, artesanato e comunicação A história tem aprimorado e multiplicado a criatividade e a capacidade inovadora das populações e das comunidades que vivem integradas às florestas, com suas descobertas, conquistas e resistência. A natureza, a fauna, a flora e os ecossistemas são os únicos meios que asseguram e garantem a existência desses povos. Inicialmente, foram as comunidades indígenas que o fizeram, depois os novos habitantes, que, saídos de todas as partes do Brasil, adentraram as matas na tentativa de assegurar a sobrevivência por meio do extrativismo da borracha, de castanhas, óleos, frutos, pescados e do cultivo. Colonos e trabalhadores pobres integraram-se à floresta na busca de melhores condições de vida. Os moradores na floresta, ao construir sua moradia, usam os produtos ofertados pela mãe natureza: a madeira, o cipó, o inajá e outras palmas e vegetações. O solo produz uma excelente cerâmica, desde a marajoara e tapajônica até os tijolos e telhas de barro da atualidade. Muitas comunidades dedicam-se a olaria. A alimentação nativa é composta de inúmeros exemplos de desenvolvimento de tecnologias sociais, como a maniçoba, o tacaca, o biju e tantas outras iguarias regionais. A maniçoba é um alimento feito a partir da maniva, que é a folha da mandioca brava. Caso seja consumida in natura, provoca a morte, por conter ácido cianídrico, que é um veneno. Os indígenas criaram a forma para torná-la comestível: depois de moer e cozinhá-la durante uma semana, a maniva é transformada em um alimento saboroso e nutritivo, que pode ser produzido por qualquer interessado com as condições naturais. Há, ainda, o peixe salgado, que depois de pescado, recebe o sal e é colocado ao sol, ficando, após ser curtido, semelhante ao charque. Tem durabilidade, valor nutricional e pode ser produzido em qualquer beira de rio pelas comunidades de pescadores. Do acari-bodó é feita a farinha de piracuí, saborosíssima e parte importante na dieta alimentar regional. O transporte fluvial é o principal meio de circulação das populações da Amazônia. A construção de embarcações em madeira é o resultado da transferência da tecnologia de produção de gerações em gerações. Canoas, barcos e montarias cruzam nas águas escuras entre a floresta. São milhares de embarcações de todos os tamanhos utilizadas em longas e curtas viagens ou para a pesca cotidiana em rios, igarapés e furos. Existem inúmeros instrumentos para a coleta de pescados e mariscos de água doce. Um conhecimento repassado e replicado para os habitantes do planeta, que sempre se interessaram em enfrentar o risco de navegar e descobrir novas terras e sonhos. Navegar na região amazônica é como caminhar em avenidas ou circular em autopistas. Doenças naturais ou desconhecidas levadas para os habitantes das florestas são tratadas com ervas, flores, sementes e madeiras na descoberta de curas ainda desconhecidas pela farmacologia moderna e capitalista. Pesquisadores do mundo todo buscam descobrir e replicar essas curas, mas visando ao lucro e à acumulação de riquezas as descobertas que servem à vida dos moradores e das populações nativas de forma comunitária e solidária. Andiroba, copaíba, óleo de puraquê, manteiga de frutos, pós, essências de flores, chás e benzimentos estão em todos os lugares, contribuindo para a cura e a harmonização entre os seres vivos que sobrevivem graças à floresta. Milhares de famílias, especialmente as mulheres, saindo das florestas até o mar e passando ainda pelo cerrado, trabalham como quebradeiras do coco babaçu, produzindo óleos, mizocarpo e outros subprodutos. Transformam o capim dourado em uma mercadoria desejada e procurada. A organização dos grupos e a garantia de sobrevivência no enfrentamento com o mercado levam à criação de grupos e organizações produzindo e se articulando para resistir ao poder do consumo e a exploração capitalista. Resistem em todas as formas e confiantes na construção de um mundo melhor. São vários os exemplos da criatividade e iniciativas para a produção de artesanato. A biojoia tem mobilizado muitas comunidades ribeirinhas e indígenas. A produção do açaí e o aproveitamento da sua semente possibilitam a mobilização e a organização de grupos, que conquista o acesso ao mercado, levando o trabalho coletivo, a experiência do convívio com a floresta e a descoberta de que é possível mudar a realidade, desde que ocorra a mobilização consciente na construção de sonhos. O processo histórico, mesmo sofrendo na atualidade a imposição da indústria cultural, mostra o enorme potencial econômico existente na região, sem considerar os modelos que se sustentam nas tecnologias tradicionais e conservadoras, que priorizam a devastação e degradação da vida em todas as suas formas, desde que assegurem a acumulação de riquezas. Os danos provocados estão à vista, levando governos e organizações não governamentais a evitar sua continuidade e a recuperação das áreas degradadas, usando para isso as Tecnologias Sociais, como instrumento para a mobilização transformadora da sociedade. As experiências vêm sendo replicadas ao longo dos tempos. No caso das populações agroextrativistas, esse desafio é ainda maior, considerando a relação diferenciada que tais populações estabelecem com os recursos florestais, o que implica estratégias diferenciadas das famílias em relação ao meio em que vivem. Conhecer essa diversidade torna-se, então, fundamental para formatar um modelo de desenvolvimento para a Amazônia, uma vez que se trata de proteger os meios de vida e a cultura dessas populações e assegurar o uso sustentável dos recursos naturais. Essa deficiência política é percebida pelas lideranças do meio rural da Amazônia e, como proposta, surgem as Escolas de Alternância (Escolas Famílias), que estabelecem dois momentos de formação: a) na Escola Família Agrícola (EFA), onde são desenvolvidos currículos próprios, construídos em conjunto pela comunidade escolar, as bases de uma educação voltada para atender às necessidades da região. Nesse ambiente, o aluno é estimulado a visualizar os problemas de sua região e buscar possíveis soluções em conjunto com as organizações e lideranças locais e as tecnologias adaptadas são testadas e comprovadas; b) na comunidade/ família, é o meio afetivo para que o aluno não perca o vínculo com sua família e não permita que o meio rural seja esvaziado de seus elementos mais capazes. Nessa filosofia, o educando é o fermento que dissemina novos saberes e tecnologias adaptadas. Assim, o GTA tem sido indutor nesse processo que mobiliza para transformar as realidades apresentadas, a partir de cada território e a realidade local, se contrapondo ao modelo devastador e degradante, que se sustenta no consumo e na exploração do homem e da natureza. Replicar as tecnologias sociais tem sido uma importante ferramenta na construção e fortalecimento da cidadania e da sustentabilidade. * Rubens Gomes é presidente da Rede GTA, Joci Aguiar é integrante da Diretoria Executiva da Rede GTA e Pedro César Batista assessor de comunicação da Rede GTA
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