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A importância das dinâmicas estaduais para a difusão de Tecnologias Sociais

Por Ana Lúcia Soarez Maciel e Rosa Maria Castilhos*

07/07/2010 - As Tecnologias Sociais (TS) emergiram  no cenário brasileiro como um  movimento de “baixo para cima”, que  se caracteriza pela capacidade criativa e organizativa de segmentos da população em gerar alternativas para suprir as suas  necessidades e/ou demandas sociais. Não  se constituem, ainda, em política pública, mas vem obtendo um reconhecimento  crescente no que se refere à capacidade de  promover um novo modelo de produção  da ciência e da aplicação da tecnologia  em prol do desenvolvimento social. Além  disso, é preciso reconhecer que as TS  são transversais às diferentes políticas sociais instituídas no Brasil, o que denota o caráter intersetorial e  interdisciplinar na difusão e desenvolvimento dessas tecnologias.

Na esteira desse movimento, há um conjunto de organizações que  vêm desenvolvendo e/ou apoiando tais iniciativas e que se encontram vinculadas às entidades da sociedade civil e às instituições de ensino  superior. Essas iniciativas conformam uma estratégia emergente para  fazer frente aos processos excludentes e, por isso, são vislumbradas  como um importante instrumento para a inclusão social, o acesso e a  disseminação do conhecimento sobre o tema. 

O presente artigo propõe-se, ainda que sucintamente, a evidenciar  a importância das dinâmicas estaduais na difusão das TS,  particularizando-as na experiência vivenciada no Estado do Rio Grande do Sul. Nesse processo, enfatiza-se o compromisso da Rede  de Tecnologia Social (RTS), bem como o seu protagonismo em criar  estratégias de mobilização coletiva para disseminar as TS e, ao mesmo  tempo, reconhecer as necessidades e as peculiaridades sociais dos  diferentes territórios do país. Com isso, as potencialidades da Rede  ampliam-se e permitem que novos sujeitos e organizações venham a  compor a sua dinâmica, contribuindo para o cumprimento da missão  da RTS no país.

Caminhos da Rede de Tecnologias Sociais no Rio Grande do Sul Em abril do ano de 2009, a Fundação Irmão José Otão (Fijo) participou da 2a Conferência Internacional de Tecnologias Sociais, realizada  em Brasília, sob coordenação da RTS. Naquela ocasião, iniciou-se o  processo de mobilização para nos inserir na Rede, na modalidade de articuladora, para que contribuíssemos, de maneira propositiva, com  o fortalecimento da Rede rumo à mobilização e à disseminação das  Tecnologias Sociais no Estado do Rio Grande do Sul.

Partindo do entendimento do quanto é importante a criação de espaços  que possibilitem a produção de conhecimentos, por meio do diálogo  presencial, assim como a troca de experiências e saberes, iniciamos o processo de articulação da Rede que, no Rio Grande do Sul, está  composta por 40 organizações: 33 da sociedade civil e 7 instituições de ensino superior. Dado esse coletivo, impôs-se a necessidade de empreender aproximações, teóricas e práticas, sobre as TS; articular  esforços, já em desenvolvimento, por um conjunto de atores, visando tornar público os impactos da atuação desse coletivo junto às políticas públicas do estado e do país.

Um primeiro resultado da articulação da Rede no Estado ocorreu  em outubro de 2009, quando foi organizada e realizada a I Mostra  de Tecnologias Sociais do Estado do Rio Grande do Sul, onde estiveram presentes aproxidamente 120 participantes e socializadas 19 tecnologias sociais. Desde então, várias ações foram desdobradas e culminaram na criação do Fórum da RTS no Rio Grande do Sul  (FRTS/RS), formado pelas entidades que fazem parte da RTS e  que coletivamente planejam as estratégias para a articulação da Rede no estado e, também, é o espaço onde são planejadas ações  de promoção do debate e de compartilhamento das experiências de  desenvolvimento das TS no solo gaúcho.

Para garantir a real dinâmica de rede, a RTS construiu uma estrutura  de governança composta pelo Fórum Nacional da RTS e pelo Comitê  Coordenador da Rede que é apoiado pela Secretaria Executiva da RTS. Foi seguindo essa dinâmica que foi constituído o FRTS/RS, o  qual está em processo de amadurecimento e se reúne mensalmente,  mas tem a intenção de focar suas ações em eventos bimestrais. É um  espaço de formação permanente que permite aos seus participantes aprendizagens em torno das TS e suas formas de difusão. Também é  um espaço consultivo e propositivo, do qual participam as instituições  do Estado do Rio Grande do Sul que integram a RTS, assim como  outros atores sociais que se interessam pela temática da Rede. A Fijo é  a entidade articuladora da Rede no Estado do RS e tem como premissa  a instauração de processos participativos e democráticos, deflagrando  a reflexão coletiva para planejar as ações do Fórum no estado. Duas atividades importantes, referentes à inserção da pauta das TS, materializaram-se como produto da atuação do Fórum no Estado. Um  delas ocorreu durante o Fórum Social Mundial, em janeiro de 2010,  na cidade de Porto Alegre, quando se fomentou a discussão acerca da  aproximação entre as TS e a Economia Solidária para a construção de um planeta mais justo e solidário, por meio da realização de um painel  intitulado “A interlocução entre as tecnologias sociais e as iniciativas  de Economia Solidária”. O objetivo do encontro foi debater o papel  estratégico dessa aliança para construção de um novo modelo de  desenvolvimento.

A segunda atividade foi a realização de uma “Reunião Preparatória para  a 4a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação (CNCTI)”  que acontecerá nos dias 26, 27 e 28 de maio de 2010, em Brasília. A  reunião aconteceu na sede da Fijo, contou com mais de 30 participantes,  entre representantes da sociedade civil e do poder público, e teve como  pauta principal a inserção do debate sobre as TS na referida CNCTI.

Como desdobramento dessa atividade, destaca-se a elaboração de um documento intitulado “Subsídios ao debate acerca das Tecnologias  Sociais na 4a Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação” (MACIEL; FERNANDES, 2010), que foi subsídio para a participação  dos membros do Fórum nas Conferências Estadual e Regional de Ciência e Tecnologia, que aconteceram em Porto Alegre, nos meses de  março e abril de 2010.

Recentemente, o Fórum da RTS no Estado do Rio Grande do Sul  elaborou o planejamento de suas iniciativas estratégicas, e é importante  destacar como exemplo: a criação da Rota de TS do estado (Fórum Itinerante) que consistirá na realização dos encontros das entidades  vinculadas ao Fórum em diferentes localidades do Rio Grande do Sul.  Esta dinâmica é parte de um processo participativo e democrático  em que diferentes atores sociais poderão se reconhecer como parte  desse coletivo que é a RTS no Brasil e, ao mesmo tempo, possibilita a  constituição de uma identidade estadual, favorecendo a aproximação  das 40 organizações gaúchas que compõem a referida Rede.

A experiência vivenciada na articulação dessa Rede, por meio do  trabalho que é desenvolvido na Fijo, tem nos mostrado o quanto as  iniciativas de descentralização da RTS são promissoras, pois permitem  a aproximação das entidades nos âmbitos locais e estaduais além  de ampliar as possibilidades de sinergia com a Rede Nacional. Se o  espírito das RTS é o de entrelaçar as organizações que desenvolvem  as TS, possibilitando a instauração de processos flexíveis, conectados  e descentralizados, a experiência do Fórum no Rio Grande do Sul está  em alinhamento total a esses pressupostos. E, ainda, se ancora em  uma atuação em rede que supõe valores e a declaração dos propósitos  coletivos vinculados à missão da RTS; objetivos compartilhados;  participação e colaboração; multiliderança e horizontalidade, pois o  Fórum não possui hierarquia nem chefe, sendo que a liderança e as  decisões são compartilhadas; conectividade, vivenciada pela interação  permanente das entidades que compõem o Fórum. Enfim, podemos  afirmar que a descentralização da RTS é uma tendência promissora na  disseminação das TS e uma possibilidade concreta de avanço na (re)  organização da Rede nos diferentes territórios que compõem o Brasil.

 

Referências Bibliográficas
 
O que são redes. Disponível em: <www.recea.org.br/acervo/O Que são redes.doc>.
 Acesso em: 5 maio 2010.
MACIEL, Ana Lúcia Suárez; FERNANDES, Rosa Maria Castilhos. Subsídios ao
 debate acerca das Tecnologias Sociais na 4a Conferência Nacional de Ciência,
 Tecnologia e Inovação (CNCTI). Porto Alegre: Fundação Irmão José Otão, 2010
* Ana Lúcia Suárez Maciel é Assistente social. Doutora em Serviço
 Social pelo Programa de Pós-graduação em Serviço Social da Faculdade de Serviço
 Social (PPGSS)/Pontifícia Universidade
 Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Vice-presidente da Diretoria Executiva da   Fundação Irmão José Otão (Fijo).  se constituem, ainda, em política pública. E-mail: ana.suarez@pucrs.br.
* Rosa Maria Castilhos
 é Assistente social. Doutora em Serviço
 Social pelo PPGSS/PUCRS, é também Coordenadora de Desenvolvimento Social da Fijo. E-mail: rosac@fijo.org.br.

Fonte: Livro “Tecnologia Social e Desenvolvimento Sustentável: Contribuições da RTS para a formulação de uma política de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação”
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