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Sabedoria popular aplicada a Tecnologia Social

Por Rodrigo Fonseca*

10/12/2008 - Diversas vezes fui acusado – provavelmente com razão – por diferentes pessoas, de ser muito acadêmico ao escrever ou falar sobre Tecnologia Social (TS). Até palavrões mais feios já foram usados, como “tecnoburocrata”, por exemplo. Como nunca vi problema em ser acadêmico ou burocrata, segui falando e escrevendo como sabia. No entanto, permanecia incomodado. Há poucos dias uma idéia me veio à cabeça ao falar sobre o conceito de Tecnologia Social em uma mesa: se TS pode promover a conexão entre o conhecimento popular tradicional e o conhecimento técnico codificado, porque não explicar TS utilizando a sabedoria popular?

Minha hipótese é que os ditados populares nos oferecem certa “flexibilidade interpretativa” que nos permitiria extrair vários ensinamentos para o campo de TS a partir da sabedoria popular. Não sei se consigo, mas conto com a paciência do leitor para testar essa hipótese neste texto. Será que cachorro velho aprende truque novo?

“É no balanço da carroça que as abóboras se ajeitam”

A primeira coisa que precisamos entender sobre TS é que o processo é tão ou mais importante que o resultado em si. O que deve se buscar com TS é um processo que resulte em relações sociais marcadas pela mudança na forma de construção, uso e difusão da base material da vida cotidiana: a tecnologia. Por tecnologia entendemos, muito além dos aparatos físicos, o conjunto de conhecimentos e condições para produção, uso e disseminação que promovem incrementos à produtividade do trabalho.

 Isso nos permite entender que a tecnologia pode ser adaptada, recriada ou reinventada dentro de processos que tenham por referência valores que vão além do resultado econômico puro. A reaplicação de TS deve estar baseada na idéia de que o processo é deve ser de re-invenção da própria TS para cada local. O que permite a participação, apropriação e recriação do conhecimento a partir das referências locais gera resultados mais ricos e duradouros.

“Vaca dá leite, não dá coca-cola”

Não adianta querer tirar alguma coisa de algo ou de alguém que não pode te dar o que você quer. A Tecnologia Convencional, da maneira como ela é construída, usada e difundida não vai produzir inclusão social, especialmente em um país periférico como o Brasil. Esta tecnologia é construída com um determinado fim que é incoerente com as condições necessárias para processos de inclusão social. Além disso, também é incoerente com a democratização do conhecimento. Não falamos aqui do acesso ao conhecimento já pronto, mas da adequação deste e desenvolvimento de conhecimento novo para promoção de desenvolvimento social.

“Para quem só tem martelo, tudo é prego”

Se você só tem uma ferramenta, uma maneira de fazer as coisas, a tendência inexorável é tentar adaptar todas as coisas a esta ferramenta. Vai “martelar parafuso”. Para objetivos diferentes é preciso usar estratégias e ferramentas diferentes. Para se produzir desenvolvimento com inclusão social é preciso usar estratégias políticas e institucionais específicas para isso, amparadas em uma base metodológica e técnica adequada.

A Tecnologia Convencional é martelo. Aonde chega impõe a adequação das atividades ao seu modelo. Em populações carentes os sistemas tecnológicos participam ativamente da construção e manutenção das situações de exclusão. Por isso, não basta alcançar a melhoria de renda. É preciso transformar as bases da reprodução cotidiana da vida. E para isso precisamos de outras ferramentas, no caso, a Tecnologia Social. Pois ela busca organizar conjuntos de conhecimentos, métodos e/ou sistemas tecnológicos que permitam gerar incrementos a produtividade do trabalho e que o resultado do aumento de produtividade seja absorvido pelos produtores diretos, detentores do conhecimento.

“Coitado é filho de rato que nasce pelado”

Ninguém é coitado. Todas as pessoas são detentoras de conhecimento e capacidade de inovar. TS não é favor, nem é bondade. É uma parceria entre muitos para construção de meios de desenvolvimento local, regional e nacional. TS, portanto não é para quem precisa, mas sim para ser feita com quem quer construir o mundo de uma maneira diferente, onde os valores que orientam a mudança social e o desenvolvimento tecnológico respeitam a cultura, o meio ambiente, o trabalhador, sem deixar de pretender transformar a realidade.

Neste sentido podemos acrescentar que:

“Quem espera por sapatos de defunto toda vida anda descalço."

Isto vale tanto para trabalhadores, para gestores de políticas públicas, como para pesquisadores. Aquele que espera a solução dos problemas vindo de outro está fadado a passar seus dias esperando. Como escreveu Paulo Freire: “O mundo não é, o mundo está sendo.” A realidade não está pronta ou pré-determinada em algum lugar, ela vai ser composta pelos elementos que os agentes colocarem nela. Quem escolhe esperar que outros façam, aceita não ter influência na construção da sua própria realidade.

"Temos duas orelhas e uma só boca, justamente para escutar mais e falar menos."

Sempre é tempo de aprender com os outros. Todos são detentores de conhecimentos e capazes de inovações. Mas para ouvir isso os “especialistas”, acadêmicos ou burocratas devem deixar de impor sua verdade e aprender com os saberes produzidos na lida diária. A desconcentração do poder da mão dos “especialistas” é um passo fundamental para a redefinição das formas e propósitos dos aparatos tecnológicos, isto é, na construção de Tecnologias Sociais. A conclusão é que quanto mais gente participar em um “jogo” democrático de construção tecnológica, melhores e mais efetivos serão os resultados das ações de política ou de desenvolvimento tecnológico.

É algo assim e vamos nessa porque quem fica parado é poste.

Rodrigo Fonseca é analista de projetos da Superintendência de Tecnologia para o Desenvolvimento Social da FINEP, doutorando do Departamento de Política Científica e Tecnológica IGE/Unicamp e ajuntador amador de ditos e anedotas populares (rrfonseca@gmail.com)

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