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Ensinamentos do II Seminário: A Voz dos Donos

Por Jorge Streit*

04/09/2008 - O formato das mesas temáticas do II Seminário de Geração de Trabalho e Renda, realizado nos dias 19 e 20/08 em Brasília-DF, permitiu que tivéssemos olhares diferentes sobre cada uma das questões em debate.

Inicialmente vinha uma visão mais acadêmica, trazendo o chamado estado da arte e, depois, exposições de gestores de políticas públicas ou de instituições representativas. Finalmente, tínhamos as falas dos líderes das cooperativas e de movimentos sociais.

Chamou atenção o respeito que os representantes das cooperativas demonstraram pelas visões teóricas apresentadas, bem como o respeito dos acadêmicos pelas opiniões dos líderes dos projetos. Em sua fala, Jeter Gomes, do GTA-Unitrabalho, enfatizou esse aspecto: "Muito mais nós aprendemos com vocês do que o contrário" - disse ele. E não é exagero. A seguir, destaco algumas abordagens feitas pelos dirigentes dos empreendimentos que, na minha opinião, elucidaram questões de relativa complexidade no campo teórico.

Livânia, mulher guerreira, agricultora de Ceará Mirim - RN, abordou a questão da responsabilização, levantada pelo Prof. Pamplona. Para ela, não cabe a postura paternalista adotada por muitas instituições no trato com os participantes de projetos. Em sua cooperativa, prevalecem regras coletivas que impõem penalidades pecuniárias a associados que, por desídia, prejudicam o coletivo. Trata-se, segundo ela, dos cooperados enxergarem-se como donos dos investimentos e, portanto, responsáveis pelo cumprimento de prazos e acordos. Em sua espontaneidade diz: "Quem ajoelha tem que rezar".

A fala de Livânia nos remeteu a uma outra interessante abordagem, esta feita pelo Prof. Parreiras, do Ipea. Lembrou-nos Parreiras de nossa herança lusitana, fundada no autoritarismo e no individualismo, com mais de ¾ de nossa história vividos sob a escravatura. Em resumo, ele queria dizer que os princípios da economia solidária centrados na cooperação, na autonomia e na solidariedade não encontram campo muito fértil por aqui. A solução encontrada no assentamento de Ceará-Mirim parece uma interessante forma de responder a esse dilema. Lá a coletivização está presente em muitos momentos, como na definição das estratégias, nas avaliações periódicas dos projetos, na comercialização e rateio dos resultados etc. Porém, cada cooperado tem clara definição do seu "jeito" ou do seu "trecho". Certa vez, andando pelo assentamento, vi as ruas de mamão irrigado com plaquetas de madeira identificando os cooperados responsáveis por cada uma delas. Ao perguntar a ela o que aquilo representava, explicou-me que era a forma de combater os "caronas", aqueles indivíduos que se aproveitam da diluição de responsabilidades para viver na sombra e água fresca, provocando desestímulo nos demais. Sábia decisão.

Ainda nessa reflexão sobre cooperação e solidariedade x individualismo, ela procurou chamar a atenção de todos para o fato de não podermos esperar que haja solidariedade e cooperação no ambiente de trabalho se não procurarmos crescer como indivíduos. Sua frase foi: "A chave da mudança só abre por dentro. Você escolhe".

Adalberto, agricultor familiar e extrativista do cerrado mineiro, comentando o processo adotado pela sua instituição para a renovação e capacitação de suas lideranças, trouxe conteúdo prático à outra séria questão levantada por Parreiras: o perigo da burocratização, fenômeno muito comum no cooperativismo tradicional, quando o corpo gerencial profissionalizado passa a controlar totalmente os rumos dos empreendimentos, afastando os cooperados do processo decisório. Na rede de extrativistas do cerrado foi instituída a prática de rodízio entre os dirigentes. A cada período determinado, um grupo de conselheiros assume a direção da rede e aqueles que encerram o seu período retornam para os seus sítios, comprometendo-se a socializar os novos conhecimentos com os vizinhos. Com isso, um grupo cada vez maior de associados passa a dominar as estratégias e torna-se capaz de exercer crítica sobre o trabalho do corpo técnico.

Severino, catador de Natal - RN e dirigente do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis, brindou-nos com uma fala articulada e densa. Mostrou-nos, na prática, o que a integração de programas e processos educativos com ações de trabalho e renda pode produzir de positivo. Em sua exposição, apresentou o conceito acadêmico de governança, pesquisado na internet, e ajustou-o ao debate que se fazia naquela mesa: a construção de instâncias apropriadas para articular cooperativas e associações com parceiros estratégicos, para propósitos comuns. Pode ter radicalizado um pouco na contraposição entre as estruturas clássicas e piramidais, e as modernas organizações em rede, não ressalvando que, para determinados propósitos, a velha hierarquia continua mostrando sua eficiência. Juarez de Paula do Sebrae, em sua fala, tratou muito bem desse dilema dizendo que temos milênios de tradição autoritária entremeados por curtos lapsos de democracia, e que as estruturas fluidas e horizontais precisam apresentar eficiência maior do que as hierarquias para se afirmarem como alternativa real.

"Seu" Vicente, cajucultor piauiense, passou-nos integridade em tudo o que disse. De sua inteligência veio a resposta para uma questão que me incomoda há tempos: de que forma nossos projetos em cadeias produtivas, setoriais por natureza, se articulam com o conceito de desenvolvimento local. Disse ele que seu principal objetivo ao atuar na Cocajupi era fazer com que a riqueza da cajucultura ficasse ali mesmo, na sua região. Bingo! O desenvolvimento de uma atividade produtiva, ao promover agregação de valor e alcançar mercados mais dinâmicos termina fortalecendo a economia local, na medida em que aumenta a circulação de riquezas.

Sitonho, da Central Casa Apis, como sempre, mostrou seu largo conhecimento sobre apicultura, falando de certificações internacionais, exigências sanitárias, oligopolização do setor, particularidades dos diferentes mercados etc. Dialogou com a fala do Prof. Newton, da UnB, quanto às possibilidades de ganhos para os produtores a partir da valorização de aspectos culturais e ecológicos, citando o mel da caatinga como exemplo de produto livre de agrotóxicos.

Izaltiêne, mandiocultor da Bahia, com sua fala mansa, deu-nos aula sobre a necessidade da assistência técnica valorizar os saberes locais dos agricultores familiares e considerar as diferentes dimensões do mundo rural. Foi assertivo em relação às limitações da formação recebida atualmente pelos profissionais de ciências agrárias, baseada na lógica do agronegócio e da monocultura.

A fala de Raimundo, cajucultor do Ceará, na simplicidade de suas palavras, retratou o cotidiano dos empreendimentos solidários, atravessado por enormes tensões e, por outro lado, gratificante em seus resultados coletivos. Na plenária torcíamos para que seu nervosismo não interrompesse a exposição que, ao final, terminou agradando a todos.

Enfim, não sei se a sensação que tive ao sair de lá foi a mesma dos demais participantes, mas acho que o nosso maior mérito, em todo esse processo, foi termos apostado na potencialidade dessas pessoas simples, historicamente relegadas a papéis subalternos nas políticas oficiais e que, finalmente, passaram a ter voz.

*Jorge Streit é gerente de Divisão da Gerência de Articulação, Parcerias e Tecnologias Sociais da Fundação Banco do Brasil

Fonte: Fundação Banco do Brasil

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