Portal RTS - Rede de Tecnologia Social



Informativo Eletrônico

E-mail*
Nome

                                             Twitter    YouTube    Aumentar o tamanho da fonte Voltar ao tamanho padrão de fonte Diminuir o tamanho da fonte
Ações do documento

Comunicação popular e mobilização social na Amazônia

Por Luís Augusto Ramos e Alex Pamplona*

02/10/08 - Geralmente, quando se pensa em resolver as necessidades básicas  do ser humano, as prioridades que se enfrentam são problemas de educação, segurança, geração de trabalho e renda etc. Porém, este debate se dá de forma equivocada, isolada e desconexa de outros eixos estratégicos. Com isso, temos a setorização do debate sobre a construção das políticas públicas, impedindo que haja compreensão e entendimento do todo, pois um olhar mais sistêmico, interdisciplinar da conjuntura só é possível quando criadas as condições necessárias para tal com informações.  

O processo de comunicação, neste caso, tem de ser compreendido como uma política pública tão importante quanto as citadas anteriormente, mas que infelizmente não é incluída entre os temas de discussão, tanto do poder público - que não tem interesse de (in)formar o cidadão sobre sua gestão - quanto da sociedade civil, que não compreende a via comunicacional  como eixo e ferramenta fundamental de incidência política, além de ser importante ferramenta de mobilização social para promoção e construção de instrumento político-pedagógico. Sendo que as demais políticas (educação, trabalho, dentre outras), precisam ser construídas de forma que dialoguem e articulem entre si.

Um bom exemplo de utilizar a comunicação de forma estratégica é do Instituto Universidade Popular (Unipop), ONG com sede em Belém-PA, que há 20 anos desenvolve atividades junto ao público jovem, dentre outros, voltadas à educação popular. Promove o Curso de Comunicação Popular tendo como objetivo a  ampliação da participação de adolescentes e jovens quanto ao acesso à informação e à democratização da comunicação na região amazônica por meio da incidência política e de inserção em espaços de diálogo para discussões e troca de informações em torno das políticas públicas de comunicação, enquanto direito humano. As atividades são desenvolvidas em parceria com o Centro de Estudos e Práticas de Educação Popular (Cepepo), ONG que atua na área de educação e comunicação popular.

Esse curso surge como uma oportunidade  de fomento e estímulo ao diálogo, tendo como eixo principal a promoção e integração de ações que são desenvolvidas isoladamente pelas organizações sociais que atuam tanto no enfrentamento dos problemas, quanto na busca por melhorias para este segmento na Amazônia.

Em sua terceira edição, o curso já beneficiou e formou mais de 120 jovens, que hoje atuam em iniciativas de cunho participativo, construtivo e propositivo em suas comunidades e organizações. O curso se propõe a:

a) promover a cidadania ativa de jovens através da capacitação sócio-política-organizativa. Esses jovens são oriundos de organizações sociais que lutam pela promoção, defesa e garantia dos direitos humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais, estimulando uma cultura de paz;

b) desenvolver processos formativos, fundamentados nos direitos humanos, educação para valores, protagonismo juvenil e educação ambiental, através da capacitação técnica com utilização de instrumentos de comunicação, tais como: teatro de rua, rádio, jornal e TV comunitária;

c) realizar campanha educativa relacionada à educação ambiental, possibilitando a   participação ativa, propositiva e cidadã dos jovens envolvidos, com mobilização em escolas públicas na Região Metropolitana de Belém.

Durante a construção do curso, foram consultadas organizações que atuam na região e em parceria com a Unipop, em algumas ações, principalmente aquelas  voltadas ao segmento juvenil.

Uma das contrapartidas acordada coletivamente é que os jovens inseridos no curso  participem integralmente das atividades formativas - pois entendemos que se esta não for uma disposição da juventude amazônida no sentido de enfrentar e transcender seus desafios, infelizmente as reivindicações levantadas até então não estarão em pauta por nenhum governo das três esferas. Este é um instrumento fundamental para a criação, implantação e implementação das políticas publicas de/para/com a juventude.

É somente com participação ativa e propositiva da juventude que se romperá a cultura de acomodação imposta a todos e se construirá uma nova cultura com educação orientada para o desenvolvimento humano das novas gerações - vivências e valores que nortearão, para a vida, mulheres e homens preparados e qualificados para o mercado de trabalho. A monitoria desse movimento é feita pelo controle social, apropriado por seus cidadãos e cidadãs que trabalham dia após dia para fortalecer a democracia em nosso país. A juventude é energia, amor é vontade de fazer acontecer e transformar sua realidade. Deve criar as condições para que haja colaboração, soma de esforços para transformar o Pará e o Brasil, com experiências positivas em relação a esta co-responsabilidade e co-gestão de ações, enfim a parceria funcionando verdadeiramente.

Ao longo dos processos formativos são discutidos e aprofundados eixos temáticos, como: direitos humanos, educação para valores e protagonismo juvenil. Além das atividades específicas, como comunicação - instrumento de gestão do conhecimento, tendo como foco a capacitação dos participantes na compreensão, apropriação e uso das diferentes tecnologias da comunicação e no planejamento enquanto instrumento político-pedagógico que dá direção à ação, enfatizando a produção de textos e relatórios, além de produções de jornais, fanzines, programas de rádio, vídeos etc. As atividades versam sobre processos organizativos e mobilizatórios para intervenção na realidade local, com elaboração, execução e apropriação de todas as etapas de um plano de ação.

Os resultados e seus produtos, até o momento são:

a) mobilização e inserção de 122 jovens pertencentes a 20 organizações juvenis na Região Metropolitana de Belém e ilhas adjacentes;

b) empenho e comprometimento dos jovens envolvidos na produção coletiva da proposta metodológica da instituição em relação ao Curso de Comunicação Popular;

c) excelente nível de participação e envolvimento dos jovens nos debates, produções individuais e coletivas, além da visível disposição em multiplicar as informações e experiências adquiridas ao longo dos processos formativos em suas comunidades e/ou outros espaços coletivos;

d) apropriação das técnicas para a construção de instrumentos de comunicação popular, via rádio, TV, fotografia e jornal e demonstração de interesse em produzir os próprios informativos em suas organizações;

e) bom nível de diálogo e troca de informações entre educadores e jovens;

f) desenvolvimento da capacidade de captar e observar além das imagens, produção de mural que evidencia ausência de políticas publicas através das imagens e mídia;

g) produção de várias edições de boletins informativos com técnica do fazine;

h) produção de quatro spots para rádios;

i) produção de um vídeo informativo, com o tema: relações humanas e participação política;

j) organização e apresentação de um programa de radio Erê FM 101,7, coordenado pelos jovens oriundos do curso;

l) constituição de um núcleo de comunicadores jovens, com o objetivo de  registrar as atividades desenvolvidas por organizações do movimento social, contribuindo para a utilização e aperfeiçoamento dos instrumentos de comunicação;

m) parceria com a revista nacional Viração Jovem e constituição do conselho Vira Jovem Belém. 

Entendemos e aprendemos a cada versão do curso que a comunicação, como instrumento de diálogo e construção de ações é essencial para o desenvolvimento, reconhecimento e autonomia do cidadão. Hoje, essa condição se torna mais presente e inerente devido ao significativo número de mídias que são formatadas por essa comunicação midiática, que estabelece uma convenção de vida para as pessoas, e isso de uma forma nada construtiva, não levando em consideração os saberes adquiridos durante a caminhada de vida, os contextos sociais, hábitos, costumes, bem como suas culturas.

É preciso que comecemos a construir processo de comunicação de forma que se contraponha a esse movimento comercial das grandes mídias, articulando as políticas públicas para que o cidadão possa ter a visão do todo e não setorizada, de ações coletivas e não isoladas. Isso fortalece a atuação em rede, permite permear a temática da comunicação de maneira transversal e global.

Neste sentido, a relação entre juventude e movimentos sociais na Amazônia além de histórica é muito positiva para a sociedade desde que o produto desta relação seja a formação de novas gerações partícipes ativas e pró-ativas, construtoras e propositoras diretas de ações coletivas e que promovam a construção de um país mais justo e fraterno, informado e formado.

*Alex Pamplona é articulador da Unipop e Luís Augusto Ramos é educador da Unipop

Portal mantido por: IBICT - Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia
Desenvolvido por: SCF Informática