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Comunicação popular e mobilização social na Amazônia
Por Luís Augusto Ramos e Alex Pamplona*
02/10/08 - Geralmente, quando se pensa em resolver as necessidades básicas do ser humano, as prioridades que se enfrentam são problemas de educação, segurança, geração de trabalho e renda etc. Porém, este debate se dá de forma equivocada, isolada e desconexa de outros eixos estratégicos. Com isso, temos a setorização do debate sobre a construção das políticas públicas, impedindo que haja compreensão e entendimento do todo, pois um olhar mais sistêmico, interdisciplinar da conjuntura só é possível quando criadas as condições necessárias para tal com informações. O processo de comunicação, neste caso, tem de ser compreendido como uma política pública tão importante quanto as citadas anteriormente, mas que infelizmente não é incluída entre os temas de discussão, tanto do poder público - que não tem interesse de (in)formar o cidadão sobre sua gestão - quanto da sociedade civil, que não compreende a via comunicacional como eixo e ferramenta fundamental de incidência política, além de ser importante ferramenta de mobilização social para promoção e construção de instrumento político-pedagógico. Sendo que as demais políticas (educação, trabalho, dentre outras), precisam ser construídas de forma que dialoguem e articulem entre si. Um bom exemplo de utilizar a comunicação de forma estratégica é do Instituto Universidade Popular (Unipop), ONG com sede em Belém-PA, que há 20 anos desenvolve atividades junto ao público jovem, dentre outros, voltadas à educação popular. Promove o Curso de Comunicação Popular tendo como objetivo a ampliação da participação de adolescentes e jovens quanto ao acesso à informação e à democratização da comunicação na região amazônica por meio da incidência política e de inserção em espaços de diálogo para discussões e troca de informações em torno das políticas públicas de comunicação, enquanto direito humano. As atividades são desenvolvidas em parceria com o Centro de Estudos e Práticas de Educação Popular (Cepepo), ONG que atua na área de educação e comunicação popular. Em sua terceira edição, o curso já beneficiou e formou mais de 120 jovens, que hoje atuam em iniciativas de cunho participativo, construtivo e propositivo em suas comunidades e organizações. O curso se propõe a: a) promover a cidadania ativa de jovens através da capacitação sócio-política-organizativa. Esses jovens são oriundos de organizações sociais que lutam pela promoção, defesa e garantia dos direitos humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais, estimulando uma cultura de paz; b) desenvolver processos formativos, fundamentados nos direitos humanos, educação para valores, protagonismo juvenil e educação ambiental, através da capacitação técnica com utilização de instrumentos de comunicação, tais como: teatro de rua, rádio, jornal e TV comunitária; c) realizar campanha educativa relacionada à educação ambiental, possibilitando a participação ativa, propositiva e cidadã dos jovens envolvidos, com mobilização em escolas públicas na Região Metropolitana de Belém. Durante a construção do curso, foram consultadas organizações que atuam na região e em parceria com a Unipop, em algumas ações, principalmente aquelas voltadas ao segmento juvenil. Uma das contrapartidas acordada coletivamente é que os jovens inseridos no curso participem integralmente das atividades formativas - pois entendemos que se esta não for uma disposição da juventude amazônida no sentido de enfrentar e transcender seus desafios, infelizmente as reivindicações levantadas até então não estarão em pauta por nenhum governo das três esferas. Este é um instrumento fundamental para a criação, implantação e implementação das políticas publicas de/para/com a juventude. É somente com participação ativa e propositiva da juventude que se romperá a cultura de acomodação imposta a todos e se construirá uma nova cultura com educação orientada para o desenvolvimento humano das novas gerações - vivências e valores que nortearão, para a vida, mulheres e homens preparados e qualificados para o mercado de trabalho. A monitoria desse movimento é feita pelo controle social, apropriado por seus cidadãos e cidadãs que trabalham dia após dia para fortalecer a democracia em nosso país. A juventude é energia, amor é vontade de fazer acontecer e transformar sua realidade. Deve criar as condições para que haja colaboração, soma de esforços para transformar o Pará e o Brasil, com experiências positivas em relação a esta co-responsabilidade e co-gestão de ações, enfim a parceria funcionando verdadeiramente. Ao longo dos processos formativos são discutidos e aprofundados eixos temáticos, como: direitos humanos, educação para valores e protagonismo juvenil. Além das atividades específicas, como comunicação - instrumento de gestão do conhecimento, tendo como foco a capacitação dos participantes na compreensão, apropriação e uso das diferentes tecnologias da comunicação e no planejamento enquanto instrumento político-pedagógico que dá direção à ação, enfatizando a produção de textos e relatórios, além de produções de jornais, fanzines, programas de rádio, vídeos etc. As atividades versam sobre processos organizativos e mobilizatórios para intervenção na realidade local, com elaboração, execução e apropriação de todas as etapas de um plano de ação. Os resultados e seus produtos, até o momento são: a) mobilização e inserção de 122 jovens pertencentes a 20 organizações juvenis na Região Metropolitana de Belém e ilhas adjacentes; b) empenho e comprometimento dos jovens envolvidos na produção coletiva da proposta metodológica da instituição em relação ao Curso de Comunicação Popular; c) excelente nível de participação e envolvimento dos jovens nos debates, produções individuais e coletivas, além da visível disposição em multiplicar as informações e experiências adquiridas ao longo dos processos formativos em suas comunidades e/ou outros espaços coletivos; d) apropriação das técnicas para a construção de instrumentos de comunicação popular, via rádio, TV, fotografia e jornal e demonstração de interesse em produzir os próprios informativos em suas organizações; e) bom nível de diálogo e troca de informações entre educadores e jovens; f) desenvolvimento da capacidade de captar e observar além das imagens, produção de mural que evidencia ausência de políticas publicas através das imagens e mídia; g) produção de várias edições de boletins informativos com técnica do fazine; h) produção de quatro spots para rádios; i) produção de um vídeo informativo, com o tema: relações humanas e participação política; j) organização e apresentação de um programa de radio Erê FM 101,7, coordenado pelos jovens oriundos do curso; l) constituição de um núcleo de comunicadores jovens, com o objetivo de registrar as atividades desenvolvidas por organizações do movimento social, contribuindo para a utilização e aperfeiçoamento dos instrumentos de comunicação; m) parceria com a revista nacional Viração Jovem e constituição do conselho Vira Jovem Belém. Entendemos e aprendemos a cada versão do curso que a comunicação, como instrumento de diálogo e construção de ações é essencial para o desenvolvimento, reconhecimento e autonomia do cidadão. Hoje, essa condição se torna mais presente e inerente devido ao significativo número de mídias que são formatadas por essa comunicação midiática, que estabelece uma convenção de vida para as pessoas, e isso de uma forma nada construtiva, não levando em consideração os saberes adquiridos durante a caminhada de vida, os contextos sociais, hábitos, costumes, bem como suas culturas. É preciso que comecemos a construir processo de comunicação de forma que se contraponha a esse movimento comercial das grandes mídias, articulando as políticas públicas para que o cidadão possa ter a visão do todo e não setorizada, de ações coletivas e não isoladas. Isso fortalece a atuação em rede, permite permear a temática da comunicação de maneira transversal e global. Neste sentido, a relação entre juventude e movimentos sociais na Amazônia além de histórica é muito positiva para a sociedade desde que o produto desta relação seja a formação de novas gerações partícipes ativas e pró-ativas, construtoras e propositoras diretas de ações coletivas e que promovam a construção de um país mais justo e fraterno, informado e formado. *Alex Pamplona é articulador da Unipop e Luís Augusto Ramos é educador da Unipop |
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